No dia 25 de outubro é celebrado o Dia Nacional da Saúde Bucal, uma data criada para chamar a atenção para os cuidados com a boca e para sua importância na saúde. E esse é um bom momento para lembrar que saúde bucal não se resume a não ter cáries ou problemas na gengiva. A boca também participa de funções como mastigação, fala e respiração.

Dentro desse conjunto existe um aspecto que muitas vezes só recebe atenção quando começa a incomodar: a forma como os dentes de cima e de baixo se encontram.

Dentes aparentemente alinhados podem não apresentar o melhor encaixe entre as arcadas. Da mesma forma, uma mordida que parece diferente no espelho não significa automaticamente que exista uma doença ou que seja necessário usar aparelho.

É justamente por isso que falar em mordida errada, ou má oclusão, exige olhar além da estética.

O ortodontista precisa observar os contatos entre os dentes, a relação entre as arcadas, a mastigação, a posição dos dentes e dos ossos da face, possíveis sinais de trauma e as necessidades individuais de cada pessoa.

Neste artigo, vou explicar quais alterações podem acontecer na mordida, quais sinais merecem atenção e em que situações uma avaliação ortodôntica pode ajudar.

O que é uma mordida errada?

“Mordida errada” é uma maneira comum de se referir ao que, na Odontologia, chamamos de má oclusão.

Oclusão é a relação estabelecida entre os dentes superiores e inferiores quando as arcadas se encontram. Quando existe alguma alteração nessa relação, podemos estar diante de uma má oclusão.

Mas isso não significa simplesmente ter dentes tortos.

Uma pessoa pode apresentar dentes relativamente alinhados e, ainda assim, ter uma alteração na maneira como as arcadas se relacionam. Também pode ocorrer o contrário: existir algum desalinhamento dentário sem uma grande repercussão funcional.

As más oclusões podem envolver a posição individual dos dentes, a relação entre a arcada superior e a inferior, características dos ossos da face ou uma combinação desses fatores. Por isso, existem diferentes classificações e diferentes graus de necessidade de tratamento.

Na prática, o diagnóstico não deveria começar simplesmente com a pergunta:

“Os dentes estão retos?”

Uma pergunta mais útil é:

“Como esses dentes se encontram e funcionam juntos?”

Como deveria ser uma mordida funcional?

É comum procurar na internet imagens de uma “mordida perfeita” e tentar comparar com os próprios dentes. O problema é que a oclusão humana apresenta variações e não existe uma única fotografia capaz de definir o que é saudável para todas as pessoas.

De maneira geral, o ortodontista observa se as arcadas conseguem se relacionar de forma adequada, se existe uma sobreposição anterior compatível com aquele caso, como os dentes posteriores se encaixam e como os contatos se distribuem quando a boca se fecha.

Também observa se a mandíbula precisa desviar para encontrar uma posição de fechamento, se determinados dentes recebem contatos muito concentrados e se existe algum sinal de prejuízo aos dentes ou aos tecidos ao redor.

Isso não significa perseguir um modelo geométrico de “mordida perfeita”.

Características faciais, formato das arcadas, tamanho e posição dos dentes e relações entre maxila e mandíbula variam entre as pessoas. O diagnóstico precisa considerar esse conjunto.

Por isso, uma mordida funcional não é simplesmente aquela que parece simétrica em uma fotografia. É aquela cuja relação dentária é compatível com a função, a saúde das estruturas e as necessidades daquele paciente.

Quais são os principais tipos de mordida errada?

A expressão mordida errada engloba diferentes alterações. Algumas acontecem no sentido vertical, outras entre os lados das arcadas e outras na relação entre os dentes ou maxilares para a frente e para trás.

Mordida aberta

Na mordida aberta, determinados dentes não se encontram quando a boca é fechada.

Quando isso acontece na região da frente, chamamos de mordida aberta anterior. A pessoa pode perceber, por exemplo, que os incisivos permanecem afastados mesmo quando os dentes posteriores estão em contato.

A ausência desse contato pode interferir no corte de determinados alimentos e, dependendo das características do caso, estar associada também a adaptações de fala e outras funções.

Para se aprofundar, veja Mordida aberta anterior: causas, impactos na fala e na respiração e tratamento. Mordida aberta anterior: causas, impactos e tratamento

Mordida profunda

Na mordida profunda acontece praticamente o oposto: os incisivos superiores cobrem os inferiores mais do que seria esperado para aquele encaixe.

Casos mais acentuados podem apresentar contatos concentrados, desgaste ou até contato dos dentes com tecidos próximos ao céu da boca. Isso, porém, não acontece em todas as pessoas com sobremordida aumentada.

A RQ possui um conteúdo específico sobre mordida profunda, suas causas e possibilidades de tratamento. Mordida profunda: causas, consequências e tratamento

Também vale conhecer a diferença entre essas duas alterações no artigo Mordida aberta e mordida profunda: quando o problema é vertical. Mordida aberta e mordida profunda: quando o problema é vertical

Mordida cruzada

Na mordida cruzada, a relação entre determinados dentes superiores e inferiores fica invertida.

Ela pode acontecer na região da frente ou nos dentes posteriores, envolver apenas um lado ou os dois e ter componentes predominantemente dentários, funcionais ou esqueléticos.

Por isso, “descruzar a mordida” não significa realizar o mesmo tratamento em todos os casos.

No blog da RQ você encontra conteúdos específicos sobre mordida cruzada anterior Mordida cruzada anterior: como saber se é dente ou osso? e mordida cruzada posterior. Mordida cruzada posterior, língua e respiração

Alterações na relação para a frente e para trás

Também existem situações em que a principal diferença aparece na relação ântero-posterior entre as arcadas.

Os dentes superiores podem estar mais projetados em relação aos inferiores, por exemplo, ou a relação entre maxila e mandíbula pode seguir um padrão diferente.

Nem sempre isso acontece apenas por causa da posição dos dentes. As bases ósseas e o padrão facial também podem participar do quadro.

Apinhamento e outros problemas de encaixe

Dentes sobrepostos, girados ou sem espaço suficiente na arcada também podem fazer parte de uma má oclusão.

O apinhamento pode dificultar o acesso da escova e do fio dental a determinadas regiões, embora isso não signifique que uma pessoa com dentes apinhados necessariamente terá cárie ou doença gengival.

Também podem existir espaços excessivos, dentes fora da arcada, assimetrias e combinações de diferentes alterações.

É exatamente por existir tanta variedade que o nome da má oclusão representa apenas o começo do diagnóstico.

Quais sinais podem indicar um problema na mordida?

Algumas alterações são percebidas olhando no espelho. Outras aparecem principalmente durante a função.

Vale procurar uma avaliação quando você percebe situações como:

  • dentes da frente que não se encontram ao fechar a boca;
  • dificuldade para cortar determinados alimentos com os incisivos;
  • dentes superiores cobrindo excessivamente os inferiores;
  • dentes de cima mordendo por dentro dos inferiores;
  • dificuldade ou desconforto durante a mastigação;
  • sensação de que poucos dentes recebem quase todo o contato;
  • marcas ou feridas provocadas pelo contato dos dentes com gengiva, palato ou outros tecidos;
  • desgaste localizado ou recorrente em determinados dentes;
  • dentes muito apinhados, dificultando a higienização;
  • necessidade de desviar a mandíbula para conseguir fechar a boca;
  • mudança recente na maneira como os dentes se encaixam.

Um detalhe importante é que esses sinais não têm uma única causa.

Desgaste dentário, por exemplo, pode estar relacionado a diferentes fatores. Dor durante a mastigação também pode ter diversas origens. E uma mudança no encaixe pode acontecer tanto por movimentações dentárias quanto por alterações em outras estruturas.

Por isso, os sinais servem para indicar que vale investigar. Eles não substituem o diagnóstico.

Mordida errada afeta a mastigação?

Pode afetar, dependendo do tipo e da intensidade da alteração.

A mastigação depende de uma combinação entre dentes, músculos, movimentos da mandíbula, língua e contatos entre as arcadas.

Quando existe redução importante da área de contato ou determinados dentes não conseguem participar adequadamente da função, a pessoa pode precisar adaptar a forma de cortar ou triturar os alimentos.

Uma revisão sistemática sobre má oclusão e desempenho mastigatório encontrou redução do desempenho principalmente em situações nas quais havia menor área de contatos oclusais. Estudos mais recentes também continuam investigando a relação entre tratamento ortodôntico e desempenho mastigatório.

Mas isso precisa ser interpretado com cuidado.

Ter uma má oclusão não significa automaticamente mastigar mal.

O organismo possui grande capacidade de adaptação, e duas pessoas com alterações visualmente semelhantes podem apresentar experiências funcionais completamente diferentes.

Em uma mordida aberta anterior, por exemplo, a dificuldade pode estar principalmente em cortar um alimento com os dentes da frente. Já outros padrões podem modificar o número ou a distribuição dos contatos posteriores.

É por isso que, durante a avaliação, perguntar como a pessoa mastiga pode ser tão importante quanto observar como os dentes aparecem no sorriso.

Mordida errada causa DTM?

Essa pergunta merece uma resposta clara:

Não é correto afirmar que uma mordida errada, sozinha, causa DTM.

DTM é a sigla para disfunção temporomandibular, um conjunto de condições que pode envolver a articulação temporomandibular, os músculos da mastigação e estruturas relacionadas.

Durante muitos anos, alterações da oclusão foram apontadas como uma das principais explicações para problemas na ATM. A evidência científica atual, porém, não sustenta uma relação causal simples dessa forma.

O National Institute of Dental and Craniofacial Research, ligado aos National Institutes of Health dos Estados Unidos, informa que as pesquisas não apoiam a ideia de que uma “mordida ruim” ou o próprio tratamento ortodôntico sejam causas de DTM. Revisões da literatura também encontraram pouca evidência de uma associação clinicamente relevante entre características oclusais específicas e DTM.

Isso não significa que o ortodontista ignore a mordida em uma pessoa que apresenta dor mandibular.

Uma mesma pessoa pode ter má oclusão e DTM ao mesmo tempo. Também pode apresentar alterações no encaixe dos dentes junto com dor, limitação de movimento, travamentos ou outros sintomas.

Coexistência, entretanto, não significa automaticamente causa e efeito.

Da mesma forma, corrigir a posição dos dentes não deve ser apresentado como promessa de prevenir ou curar DTM.

Se você apresenta dor na mandíbula, limitação para abrir a boca ou outros sinais relacionados, vale conhecer o conteúdo sobre sintomas de DTM e quando procurar ajuda. Sintomas de DTM: sinais e quando procurar ajuda

E se a principal dúvida é um clique ou estalo durante o movimento, veja também Mandíbula estalando: quando o barulho merece investigação? Mandíbula estalando: quando investigar?

Saúde bucal não é apenas estética

É natural associar Ortodontia a dentes alinhados e ao sorriso.

A estética faz parte do tratamento e pode ser muito importante para quem procura um ortodontista. Mas ela é apenas uma das dimensões avaliadas.

Ao examinar uma mordida, também observo:

  • como os dentes participam da mastigação;
  • como os contatos estão distribuídos;
  • se existem áreas sujeitas a trauma;
  • se a posição dos dentes dificulta a higiene;
  • a condição dos dentes e dos tecidos de suporte;
  • a relação entre as arcadas;
  • a estabilidade do encaixe;
  • as características da face;
  • possíveis queixas funcionais.

Isso não significa que qualquer diferença em relação a um padrão considerado ideal represente doença.

Na verdade, um dos objetivos de uma avaliação cuidadosa é justamente distinguir uma variação individual que pode ser acompanhada de uma alteração que realmente traz consequências ou apresenta indicação de tratamento.

Essa diferença evita transformar Ortodontia em uma busca por dentes geometricamente perfeitos.

Como o ortodontista avalia uma mordida?

Olhar para os dentes é apenas uma parte do diagnóstico.

A avaliação começa pelo exame clínico. Nele, observo como os dentes superiores e inferiores se relacionam, onde estão os contatos, a posição individual dos dentes, o formato das arcadas e o modo como a mandíbula encontra sua posição de fechamento.

Também é importante avaliar a face.

A relação entre maxila e mandíbula, o perfil, as proporções faciais e o padrão de crescimento podem ajudar a entender se a alteração está principalmente nos dentes ou se existe participação das estruturas ósseas.

Dependendo do caso, a documentação pode envolver:

  • fotografias da face e da boca;
  • escaneamento intraoral ou modelos das arcadas;
  • radiografias, quando indicadas;
  • análise cefalométrica em situações específicas;
  • avaliação da relação entre os dentes;
  • análise facial;
  • observação de aspectos funcionais.

Os registros digitais ajudam a estudar o encaixe com mais detalhe e documentar o caso, mas nenhuma fotografia, escaneamento ou radiografia isoladamente decide qual deve ser o tratamento.

O diagnóstico surge da combinação entre exames, avaliação clínica, histórico, função, idade e objetivos do paciente.

Toda mordida diferente precisa ser corrigida?

Não.

Esse é um ponto importante.

Encontrar uma característica diferente na mordida não significa que exista indicação automática de tratamento ortodôntico.

O ortodontista precisa analisar, entre outros fatores:

  • qual é a alteração;
  • sua intensidade;
  • se há consequências funcionais;
  • se existem sinais de trauma;
  • a saúde dos dentes e dos tecidos de suporte;
  • se a situação está estável ou mudando;
  • a idade e, quando aplicável, o crescimento;
  • as necessidades e objetivos da pessoa.

Uma mordida discreta, estável e sem repercussões pode levar a uma decisão diferente da encontrada em alguém com dificuldade para morder, trauma nos tecidos, alteração progressiva ou uma discrepância mais importante entre as arcadas.

Também existem situações em que acompanhar é mais apropriado do que intervir naquele momento.

Por isso, o diagnóstico não deveria funcionar como uma caça a imperfeições.

A pergunta não é simplesmente “existe algo diferente?”, mas também “essa diferença precisa ser tratada e qual benefício esperamos obter ao tratá-la?”

Quais tratamentos podem ser considerados?

Quando existe indicação de tratamento, a estratégia depende do diagnóstico.

O aparelho ortodôntico fixo continua sendo uma das ferramentas disponíveis e permite realizar diferentes tipos de movimentação dentária.

Os alinhadores transparentes, como Invisalign®, também podem tratar diferentes más oclusões. Mas o fato de uma alteração poder ser tratada com alinhadores não significa que todo caso seja igualmente previsível ou que o mesmo planejamento funcione para todas as pessoas.

Em algumas situações, o tratamento pode exigir recursos auxiliares, expansão, elásticos ou outras abordagens. Em pacientes em crescimento, determinadas alterações podem envolver estratégias diferentes das utilizadas em adultos.

Quando existe uma discrepância esquelética importante, o planejamento também pode extrapolar a simples movimentação dos dentes.

Ou seja: primeiro vem o diagnóstico. Depois, escolhemos a ferramenta.

Esse princípio fica mais claro em problemas específicos. No artigo sobre Invisalign para mordida profunda, por exemplo, explico por que os alinhadores podem ser uma alternativa em muitos casos, mas sua indicação depende dos movimentos necessários e das características individuais. Invisalign para mordida profunda: quando os alinhadores conseguem corrigir a sobremordida?

O mesmo raciocínio vale para outras formas de má oclusão.

Quando procurar uma avaliação da mordida?

Nem sempre uma pessoa consegue identificar sozinha se existe uma má oclusão relevante. Ainda assim, alguns sinais justificam uma avaliação.

Procure um ortodontista se você perceber:

  • dificuldade para morder ou cortar alimentos;
  • dentes que não se encontram em determinadas regiões;
  • sobreposição muito acentuada dos dentes da frente;
  • mordida aparentemente invertida em alguma região;
  • contatos que machucam gengiva ou palato;
  • dificuldade importante de higienização provocada pelo posicionamento dos dentes;
  • desgaste ou pequenas fraturas que aparecem repetidamente;
  • desvio perceptível ao fechar a boca;
  • mudança recente no encaixe dos dentes;
  • dificuldade funcional associada à mordida.

Dor na mandíbula, travamentos ou limitação de abertura também merecem investigação, mas é importante reforçar: esses sintomas não provam que a causa esteja na mordida.

Na consulta, o objetivo é justamente separar essas situações e entender o que realmente está acontecendo.

Entender a mordida é mais importante do que simplesmente deixá-la “reta”

Uma mordida pode parecer apenas uma questão de alinhamento até começarmos a observar tudo o que acontece quando os dentes se encontram.

Há dentes que precisam cortar, outros que participam da trituração dos alimentos, contatos que precisam ser avaliados e uma relação completa entre dentes, arcadas, mandíbula e face.

Ao mesmo tempo, não precisamos transformar qualquer variação anatômica em problema.

Há más oclusões que merecem tratamento. Há características que podem apenas ser acompanhadas. E há situações em que a principal queixa nem sequer tem origem ortodôntica.

É por isso que uma boa avaliação não começa escolhendo entre aparelho fixo ou alinhador.

Ela começa entendendo como a sua mordida funciona, o que está diferente e se existe realmente algo que vale a pena corrigir.

Se você percebe que seus dentes não se encaixam bem, sente dificuldade para mastigar ou simplesmente quer entender melhor a sua mordida, agende uma avaliação ortodôntica comigo.

Na consulta, podemos analisar o encaixe dos dentes, a função da mordida, suas características faciais e os demais fatores do seu caso para conversar sobre quais opções de acompanhamento ou tratamento realmente fazem sentido. Entre em contato pelo whatsapp e agende uma consulta.

Referências bibliográficas

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