Chupar dedo, usar chupeta ou mamadeira são comportamentos bastante comuns na infância. Esses hábitos fazem parte do processo natural de desenvolvimento dos bebês e, em muitos casos, representam formas legítimas de conforto emocional e segurança. Em especial nos primeiros meses de vida, quando o vínculo com a mãe está em formação, a sucção é um reflexo essencial para a alimentação e para a autorregulação da criança.

No entanto, quando esses hábitos persistem por tempo prolongado, podem interferir no desenvolvimento orofacial e dentário, especialmente após os dois anos de idade. E aqui, vale uma observação importante: sei que a rotina de maternidade, trabalho e, muitas vezes, a ausência de uma rede de apoio tornam esses hábitos compreensíveis, e, em muitos casos, necessários para acalmar e acolher a criança.

Por isso, este artigo tem como objetivo oferecer uma orientação clara, fundamentada em estudos científicos, sobre como os hábitos orais na infância impactam o crescimento facial e o posicionamento dentário. Não se trata de julgamento nem de imposição, mas de conhecimento e acolhimento, afinal, entender o que está acontecendo é o primeiro passo para tomar decisões conscientes, com tranquilidade e afeto.

O que são hábitos orais na infância e por que eles surgem

Os chamados hábitos orais na infância se referem a comportamentos repetitivos que envolvem a região da boca, como a sucção do dedo, o uso da chupeta e a mamadeira. Esses hábitos são classificados em dois grupos:

  • Sucção nutritiva: relacionada à alimentação, como o ato de mamar no seio materno ou na mamadeira.
  • Sucção não nutritiva: não tem função alimentar, mas proporciona sensação de conforto. Exemplos incluem o uso da chupeta e a sucção digital (chupar o dedo).

A sucção é um reflexo primitivo e fundamental nos primeiros meses de vida. É por meio dela que o bebê se alimenta, estabelece o vínculo com a mãe e encontra uma forma natural de se acalmar. A amamentação, especialmente quando mantida de forma exclusiva até os seis meses e complementar até os dois anos, além de cumprir funções nutricionais, também exerce um papel importante no desenvolvimento adequado da face e da musculatura oral.

Segundo o estudo de Silva EL et al. (2006), publicado na plataforma SciELO, a amamentação no primeiro ano de vida atua como fator protetor contra hábitos orais deletérios e favorece o equilíbrio das funções orofaciais. Ou seja, crianças amamentadas por mais tempo têm menor propensão a desenvolver hábitos prolongados como uso de chupeta e sucção digital.

É importante diferenciar os hábitos transitórios, comuns e esperados na primeira infância, daqueles que se tornam persistentes, ultrapassando os 2 a 4 anos de idade. Quando o hábito se prolonga, especialmente com frequência e intensidade elevadas, pode afetar a formação dos ossos da face, a posição dos dentes e até mesmo a respiração e a fala da criança.

Chupeta, dedo e mamadeira: quais os impactos desses hábitos orais?

Embora sejam comuns e até necessários em alguns momentos da infância, o uso prolongado de chupeta, sucção digital (dedo) e mamadeira pode interferir negativamente no crescimento orofacial e no posicionamento dos dentes. A seguir, vou explicar de forma didática o que a ciência já comprovou sobre cada um desses hábitos.

Chupeta: conforto com atenção

A chupeta costuma ser associada ao alívio emocional do bebê. Ela ajuda a criança a lidar com momentos de separação, sono e insegurança, especialmente quando há ausência da mãe ou dificuldade na amamentação.

No entanto, estudos indicam que o uso prolongado da chupeta, especialmente após os dois anos de idade, está diretamente ligado a alterações no desenvolvimento da mordida. De acordo com a pesquisa de Melo PED et al. (2014), publicada na Revista CEFAC, a chupeta é um dos hábitos orais mais prevalentes em crianças de 4 a 6 anos e está associada a mordida aberta anterior e mordida cruzada posterior.

A gravidade desses efeitos está relacionada a três fatores: frequência, intensidade e duração do hábito, como reforça Corrêa CC et al. (2016) na revista CODAS. Quanto mais tempo a criança usar a chupeta e quanto mais intensa for a sucção, maiores os riscos de alterações estruturais.

Um ponto importante é o mito da “chupeta ortodôntica”. Segundo revisão sistemática de Corrêa CC et al., não há diferença significativa entre chupetas ortodônticas e as convencionais no que diz respeito à prevenção de alterações orofaciais. Ou seja, mesmo chupetas com formato “anatômico” podem causar os mesmos efeitos quando usadas por tempo prolongado.

O ideal é que o uso da chupeta seja evitado após os dois anos de idade, e a transição seja feita de forma gradual, com orientação profissional e acolhimento emocional à criança.

Sucção de dedo: conforto emocional e impacto funcional

Chupar o dedo é um comportamento instintivo e pode surgir até mesmo antes do nascimento, ainda no útero. É uma forma de autorregulação emocional, ou seja, a criança encontra no hábito uma maneira de lidar com o estresse, o cansaço ou a solidão.

No entanto, diferente da chupeta, que pode ser removida pelos pais, a sucção digital tende a ser mais difícil de controlar, justamente por ser parte do corpo da criança. Estima-se que 9,7% das crianças mantenham esse hábito de forma prolongada, segundo Melo PED et al. (2014).

Os principais impactos estão relacionados a:

  • Protrusão dos dentes incisivos superiores (os dentes da frente ficam mais inclinados para frente);
  • Mordida aberta anterior, impedindo o fechamento completo da arcada;
  • Palato estreito, alterando o espaço da arcada superior.

Um estudo de Muzulan CF et al. (2011), publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, demonstrou que quanto mais intenso e duradouro for o hábito de sucção digital, maior o risco de alterações dentoesqueléticas permanentes.

Aqui, o papel dos pais é fundamental: com paciência, estratégias lúdicas e apoio profissional, é possível fazer a criança abandonar o hábito sem sofrimento, evitando traumas ou cobranças excessivas.

Mamadeira: quando o hábito se torna prejudicial

A mamadeira, especialmente nos primeiros meses de vida, pode ser uma ferramenta essencial, principalmente quando a amamentação exclusiva não é possível ou quando a mãe precisa retornar ao trabalho. O problema surge quando a mamadeira se torna um hábito prolongado, mantido após a introdução alimentar sólida e o desenvolvimento da mastigação.

Pesquisas mostram que o uso contínuo da mamadeira além dos dois anos está associado ao desenvolvimento de mordida aberta e degrau distal mandibular (diferença de nível entre os arcos dentários), conforme estudo de Santos MP et al. (2020) publicado no Research, Society and Development Journal.

Além disso, o uso da mamadeira como substituto do seio pode interferir negativamente na musculatura facial e na respiração, principalmente quando a criança passa a dormir com a mamadeira na boca, favorecendo o acúmulo de líquidos e risco de cáries, a chamada “cárie de mamadeira”.

É importante ressaltar: o uso da mamadeira em si não deve ser condenado, mas sim observado com atenção. Sempre que possível, é recomendável reduzir seu uso progressivamente, com introdução de copos de transição e estímulo à alimentação mastigável.

Como hábitos orais afetam o desenvolvimento facial e os dentes

Quando persistem além da primeira infância, os hábitos orais não nutritivos podem gerar alterações no equilíbrio funcional da musculatura orofacial, no posicionamento dos dentes e até no formato dos ossos da face. Isso acontece porque a boca, durante o crescimento, é altamente moldável. E quando determinada força é aplicada de forma repetida (como a sucção do dedo ou o uso constante da chupeta), o sistema musculoesquelético se adapta a essa pressão.

Entre as consequências mais comuns, segundo Bezerra IC et al. (2021), em estudo da UNINASSAU, estão:

Mordida aberta anterior

É uma das alterações mais frequentes. O contato constante de um objeto (como dedo ou bico) entre os dentes anteriores impede que eles se encontrem, mesmo com a boca fechada. Isso afeta a mastigação, a fala e a estética do sorriso.

Mordida cruzada posterior

Outro efeito típico de hábitos prolongados, a mordida cruzada ocorre quando os dentes superiores se fecham por dentro dos inferiores (o oposto do ideal). Geralmente está associada à sucção intensa e prolongada, que estreita o palato e reduz o espaço na arcada superior.

Respiração bucal e interposição lingual

O uso prolongado de chupeta ou dedo pode impactar a posição da língua em repouso, levando à chamada interposição lingual (quando a língua empurra os dentes ao falar ou engolir). Isso, por sua vez, pode favorecer a respiração pela boca, um padrão respiratório menos eficiente, que afeta o sono, o crescimento facial e até a imunidade da criança.

Alterações na fala e mastigação

O desalinhamento dos dentes e a modificação do palato interferem na articulação de alguns sons e na eficiência mastigatória. Em muitos casos, essas alterações podem ser revertidas com intervenção precoce, mas se mantidas por muito tempo, exigem tratamento ortodôntico e acompanhamento fonoaudiológico.

Vale lembrar que, como reforça o estudo de Bezerra IC et al., o fator mais determinante é o tempo. Ou seja, o início precoce de um hábito nem sempre é o problema, o maior risco está na sua persistência após os 2 a 4 anos de idade.

Quando intervir e como fazer isso com acolhimento

O momento certo para intervir nos hábitos orais na infância varia de acordo com a frequência, intensidade e idade da criança. De maneira geral, o ideal é que esses hábitos sejam abandonados até os 3 a 4 anos de idade, período em que os efeitos ainda são, em sua maioria, reversíveis.

Segundo o estudo de Bezerra IC et al. (2021), quanto mais cedo for feito o acompanhamento, maior a chance de reversão espontânea das alterações no crescimento orofacial. Isso ocorre porque, nessa fase, os ossos da face ainda estão em desenvolvimento ativo, e o sistema muscular é mais adaptável às correções funcionais.

Como saber se é hora de intervir?

Alguns sinais que indicam a necessidade de avaliação profissional incluem:

  • Uso da chupeta ou mamadeira após os 3 anos;
  • Sucção do dedo durante o dia ou ao dormir;
  • Dentes da frente afastados mesmo com a boca fechada;
  • Alterações na fala ou dificuldade de mastigação;
  • Respiração predominante pela boca.

Esses sinais não indicam culpa ou falha dos pais, mas sim que é hora de observar com mais atenção e buscar ajuda especializada para evitar complicações futuras.

A importância do acolhimento no processo de transição

Eliminar um hábito oral não é apenas uma questão de “tirar o objeto da criança”. É um processo emocional, que precisa ser feito com paciência, respeito e confiança. A forma como essa transição é conduzida pode impactar diretamente a autoestima e o comportamento da criança.

No consultório, costumo recomendar estratégias como:

  • Introduzir brinquedos de conforto para substituir o hábito;
  • Criar pequenas metas progressivas, como reduzir o tempo de uso por semana;
  • Oferecer reforços positivos, como elogios e estímulos em cada avanço;
  • Envolver a criança na escolha de alternativas (copinhos, paninhos, personagens, etc.).

Mais do que interromper o hábito, o objetivo é criar um ambiente seguro, onde a criança sinta que está sendo cuidada, e não punida. O sucesso da intervenção está diretamente ligado à forma como os pais e profissionais lidam com esse processo.

O papel da família e da equipe de saúde no cuidado com hábitos orais

A superação de hábitos orais na infância não é uma tarefa isolada, ela depende de uma aliança entre a criança, a família e os profissionais de saúde. Essa parceria é essencial para conduzir o processo com empatia, segurança e resultados duradouros.

Família: o primeiro apoio emocional

Pais, mães e cuidadores são as figuras mais próximas da criança e, por isso, desempenham um papel decisivo tanto na prevenção quanto na transição desses hábitos. Mas é importante lembrar: a rotina intensa, as exigências do dia a dia e até a falta de rede de apoio muitas vezes tornam difícil lidar com essas questões de forma imediata.

O que propomos aqui não é cobrança, mas sim acolhimento e orientação. Quando os pais são bem informados, conseguem tomar decisões mais assertivas, respeitando o tempo e o ritmo da criança.

Equipe multiprofissional: cada especialista com sua contribuição

O acompanhamento ideal é feito por uma equipe composta por:

  • Ortodontista: avalia o impacto dos hábitos no desenvolvimento dentofacial e orienta sobre a necessidade (ou não) de intervenção ortodôntica.
  • Odontopediatra: acompanha a saúde bucal desde os primeiros meses de vida, observando sinais precoces de alterações.
  • Fonoaudiólogo: atua quando há interferência do hábito na fala, respiração ou mastigação.
  • Psicólogo: pode ajudar em casos em que os hábitos orais estejam ligados a questões emocionais, como insegurança ou ansiedade.

Essa visão integrada, como destaca Corrêa CC et al. (2016), permite um cuidado mais completo, respeitando as condições culturais, emocionais e sociais de cada família. Quando há escuta ativa e empatia, a adesão ao tratamento é muito maior, e os resultados, mais consistentes.

A missão dos profissionais não é substituir o papel da família, mas caminhar ao lado. Mostrar que é possível intervir com amor, sem rigidez ou culpa.

Sem culpa, com cuidado: como ajudar seu filho com hábitos orais

Falar sobre hábitos orais na infância é, antes de tudo, um convite à observação e ao cuidado. Chupeta, dedo e mamadeira são recursos que, em muitos momentos, ajudam a criança a se sentir segura, especialmente em contextos em que o colo da mãe não pode estar sempre disponível. Esses hábitos fazem parte da infância e não devem ser encarados com culpa.

O que a ciência nos mostra, e o que tento trazer neste artigo, é que, com informação e acolhimento, é possível acompanhar o desenvolvimento infantil de forma mais consciente. Quando os hábitos se tornam persistentes, podem sim afetar o crescimento da face, a posição dos dentes e o equilíbrio funcional da boca. Mas com orientação adequada e intervenções no tempo certo, esses efeitos podem ser prevenidos ou revertidos com segurança.

Se você percebe que seu filho mantém algum desses hábitos há mais tempo do que o ideal, o mais importante é não se culpar, e sim buscar orientação. Aqui nos consultórios, tanto em Pinheiros quanto na Vila Madalena, estou à disposição para avaliar com cuidado e tranquilidade o caso do seu filho, sempre respeitando o ritmo da criança e da família.

Se você ainda tem dúvidas ou quer uma avaliação completa, pode me chamar no WhatsApp. Vai ser um prazer ajudar você e sua família.

Referencial Bibliográfico

Melo PED et al. (2014). Hábitos orais deletérios em um grupo de crianças. Revista CEFAC – SciELO.

Corrêa CC et al. (2016). Interferência dos bicos ortodônticos e convencionais no desenvolvimento orofacial. Revista CODAS – SciELO.

Muzulan CF et al. (2011). O lúdico na remoção de hábitos de sucção de dedo e chupeta. Revista da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia – SciELO.

Bezerra IC et al. (2021). Hábitos deletérios de sucção não nutritiva em pré-escolares e suas consequências ortodônticas. Revista de Odontologia da UNINASSAU – REOARF.

Santos MP de Morais et al. (2020). Aleitamento materno: implicações orais na saúde pública. Research, Society and Development Journal.

Lume-UFRGS (2009). Associação entre duração do aleitamento materno e má oclusão em pré-escolares. Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Silva EL et al. (2006). Hábitos bucais deletérios: uma revisão. Instituto Evandro Chagas – SciELO.