A mordida não depende apenas de os dentes estarem alinhados ou da forma como as arcadas se encaixam para a frente e para trás. A relação vertical também precisa ser observada: ao fechar a boca, os incisivos superiores e inferiores devem apresentar uma sobreposição equilibrada.

Na mordida aberta anterior, os dentes da frente permanecem afastados, mesmo quando os dentes posteriores se encostam. Na mordida profunda, ocorre o oposto: os incisivos superiores cobrem uma parte excessiva dos inferiores. Embora sejam alterações diferentes, ambas podem envolver a posição dos dentes, o crescimento dos ossos da face, hábitos orais e aspectos funcionais.

Dependendo das características e da intensidade do problema, a mordida aberta e a mordida profunda podem interferir no corte dos alimentos, na mastigação, na fala e na aparência do sorriso. Para compreender essas consequências e escolher a abordagem adequada, é necessário identificar não apenas como os dentes se encontram, mas também por que esse encaixe vertical se desenvolveu.

O que significa ter um problema vertical na mordida?

O encaixe entre os dentes pode ser analisado em diferentes direções. O ortodontista observa, por exemplo, a relação das arcadas para a frente e para trás, o encaixe entre os lados direito e esquerdo e a maneira como os dentes superiores e inferiores se encontram verticalmente.

Na região anterior, essa relação vertical recebe o nome de sobremordida. O termo indica quanto os incisivos superiores cobrem os incisivos inferiores quando a boca está fechada. Uma determinada sobreposição faz parte do encaixe dentário, mas ela pode estar reduzida, ausente ou aumentada.

Quando os incisivos não se encontram e permanece um espaço entre eles, temos a mordida aberta anterior. Quando os dentes superiores cobrem uma parte excessiva dos inferiores, temos a mordida profunda. Por isso, essas duas alterações podem ser entendidas como manifestações opostas de um problema vertical da mordida.

Essa classificação, entretanto, não deve ser feita apenas pela aparência do sorriso. A posição dos dentes, os contatos durante o fechamento da boca, o formato das arcadas e o padrão de crescimento facial ajudam a determinar se a alteração é predominantemente dentária, esquelética ou uma combinação das duas.

Para conhecer outras formas de alteração no encaixe dos dentes e os sinais que merecem atenção, também pode ser útil ler o conteúdo sobre como identificar e tratar uma mordida desalinhada.

Compreender essa relação vertical permite diferenciar com mais clareza o que acontece em cada caso. Embora a mordida aberta e a mordida profunda afetem a mesma dimensão da oclusão, elas apresentam características bastante distintas.

Mordida aberta e mordida profunda: qual é a diferença?

A principal diferença está na forma como os dentes da frente se encontram verticalmente. Na mordida aberta anterior, os incisivos superiores e inferiores permanecem afastados. Na mordida profunda, os dentes superiores cobrem uma parte maior dos inferiores do que seria esperado para um encaixe equilibrado.

Apesar de serem alterações opostas, ambas precisam ser avaliadas além da aparência do sorriso. O mesmo sinal visível pode resultar de diferentes combinações entre posição dentária, desenvolvimento dos ossos da face, padrão de crescimento e funções orais.

O que é mordida aberta anterior?

A mordida aberta anterior ocorre quando os dentes posteriores se encostam, mas permanece um espaço entre os incisivos superiores e inferiores. Em outras palavras, a pessoa fecha a boca, porém os dentes da frente não estabelecem contato vertical.

Essa abertura pode envolver apenas alguns dentes ou alcançar uma região anterior mais ampla. Sua intensidade também varia: em determinados casos, o espaço é discreto; em outros, a ausência de contato é facilmente percebida ao falar, sorrir ou tentar morder um alimento.

Uma revisão publicada em 2023 descreve a mordida aberta anterior como uma condição complexa, caracterizada pela falta de contato ou sobreposição entre os dentes anteriores superiores e inferiores. O estudo também reforça que sua origem pode envolver fatores genéticos, ambientais, funcionais e relacionados ao desenvolvimento.

A falta de contato entre os incisivos pode dificultar o corte de alguns alimentos. Entretanto, a presença de mordida aberta não indica, por si só, qual é a sua causa nem permite definir o tratamento adequado.

O que é mordida profunda?

Na mordida profunda, os incisivos superiores apresentam uma sobreposição vertical excessiva sobre os inferiores. Dependendo da intensidade, os dentes inferiores podem ficar pouco visíveis quando a pessoa fecha a boca ou sorri.

Não existe apenas uma forma de mordida profunda. Em alguns pacientes, a alteração está relacionada principalmente à posição ou à erupção dos dentes. Em outros, também estão presentes características esqueléticas, como menor altura da parte inferior da face ou um padrão específico de crescimento mandibular.

Nos casos mais acentuados, os incisivos inferiores podem tocar a região posterior dos dentes superiores ou os tecidos próximos ao céu da boca. Também podem existir contatos concentrados e sinais de desgaste, mas essas consequências não aparecem em todas as pessoas com mordida profunda.

Duas alterações opostas, mas com diagnóstico igualmente complexo

Observar se os dentes da frente estão afastados ou excessivamente sobrepostos ajuda a reconhecer o tipo de alteração vertical. Essa observação, porém, representa apenas o início do diagnóstico.

Uma mordida aberta pode ser predominantemente dentária, quando a alteração está mais concentrada na posição dos dentes, ou apresentar um componente esquelético importante, relacionado ao crescimento e às proporções faciais. A mordida profunda também pode resultar de fatores dentários, esqueléticos ou da associação entre eles.

Por isso, duas pessoas com uma aparência semelhante no sorriso podem precisar de planejamentos diferentes. O ortodontista precisa avaliar os contatos da mordida, a posição dos incisivos e dos dentes posteriores, as proporções faciais e o padrão de crescimento antes de indicar qualquer forma de correção.

Essa análise também ajuda a compreender por que hábitos orais, postura da língua, respiração, genética e direção de crescimento não influenciam todos os pacientes da mesma maneira.

Por que a mordida aberta ou profunda se desenvolve?

A mordida aberta e a mordida profunda não costumam ter uma causa única. Essas alterações podem resultar da interação entre posição dentária, hábitos orais, postura da língua, respiração, padrão de crescimento facial e predisposição genética.

Cada fator também pode ter um peso diferente. Um hábito prolongado pode ser determinante para uma criança, enquanto outra pessoa apresenta uma alteração semelhante relacionada principalmente ao crescimento dos ossos da face. Na mordida profunda, a posição e a erupção dos dentes também podem se combinar com características esqueléticas.

Uma revisão sobre a etiologia da mordida aberta anterior identificou fatores ambientais, funcionais, neuromusculares e hereditários, além de destacar que as classificações encontradas na literatura nem sempre são uniformes. Isso reforça a necessidade de investigar o conjunto de características de cada paciente, em vez de procurar uma explicação isolada.

Hábitos de sucção e o desenvolvimento da mordida

A sucção de dedo ou chupeta exerce forças sobre os dentes e os tecidos que os sustentam. Quando o hábito permanece por tempo prolongado, especialmente durante o desenvolvimento da dentição, pode contribuir para a inclinação dos incisivos e para a ausência de contato entre os dentes anteriores.

O efeito não depende somente da existência do hábito. Frequência, duração, intensidade, posição do dedo ou da chupeta e fase de crescimento ajudam a determinar se haverá alterações e qual será sua extensão. Por isso, duas crianças com hábitos aparentemente semelhantes podem desenvolver características diferentes.

Os hábitos de sucção estão mais diretamente associados à mordida aberta anterior do que à mordida profunda. Mesmo assim, não é correto concluir que toda mordida aberta foi causada por chupeta ou sucção de dedo. A literatura descreve a condição como resultado da interação entre fatores ambientais e um padrão de crescimento que também pode ter influência genética.

Em crianças pequenas, algumas alterações podem diminuir depois que o hábito é interrompido, principalmente quando ainda existe potencial de crescimento e a estrutura facial não apresenta um componente esquelético importante. A possibilidade de correção espontânea, porém, precisa ser analisada individualmente; esperar sem acompanhamento pode permitir que o problema permaneça ou se torne mais complexo.

Para pais e responsáveis que desejam observar outros sinais durante o crescimento, o artigo sobre como saber se a criança precisa de aparelho ortodôntico explica a relação entre hábitos orais, respiração, mastigação, fala e desenvolvimento da mordida.

Língua interposta: causa, consequência ou fator de manutenção?

A língua interposta ocorre quando a língua permanece ou avança entre os dentes, seja em repouso, durante a deglutição ou na produção de alguns sons. Essa postura é observada com frequência em pessoas com mordida aberta anterior, mas sua participação no desenvolvimento do problema é complexa.

Em determinados casos, a pressão repetida da língua pode contribuir para o posicionamento dos dentes e dificultar o contato entre os incisivos. Em outros, a língua passa a ocupar o espaço que já existe entre as arcadas, funcionando como uma adaptação à própria mordida aberta.

Uma revisão publicada em 2025 sobre o comportamento da língua na mordida aberta destaca que ainda há discussão sobre ela atuar como causa ou consequência da alteração. Na prática, também pode funcionar como fator de manutenção, especialmente quando a postura inadequada continua após a movimentação dos dentes.

Por essa razão, observar somente a língua durante o ato de engolir pode ser insuficiente. O diagnóstico deve considerar sua posição de repouso, a forma como ela participa da fala, o selamento dos lábios e a relação com a respiração. Quando existe alteração funcional, a avaliação conjunta com um fonoaudiólogo pode ser indicada.

Respiração bucal e equilíbrio das funções orais

A respiração predominantemente bucal pode modificar a postura habitual dos lábios, da língua e da mandíbula. Essas adaptações podem alterar o equilíbrio de forças ao redor dos dentes e coexistir com mudanças no desenvolvimento das arcadas.

Estudos encontram associação entre respiração bucal e diferentes tipos de má oclusão, incluindo a mordida aberta. Associação, contudo, não significa que respirar pela boca seja sempre a causa direta do problema. A respiração bucal pode estar relacionada a obstruções nasais, alterações anatômicas, alergias ou hábitos adquiridos, e esses fatores não produzem os mesmos efeitos em todas as pessoas.

A observação do padrão respiratório faz parte do diagnóstico ortodôntico, mas não substitui a investigação da via aérea. Quando há ronco, dificuldade para respirar pelo nariz, sono agitado ou manutenção frequente da boca aberta, pode ser necessário encaminhamento ao otorrinolaringologista.

O objetivo dessa avaliação integrada é compreender se existe uma condição respiratória que precisa de cuidado específico. O tratamento ortodôntico movimenta dentes e pode atuar sobre determinadas relações das arcadas, mas não deve ser apresentado como solução automática para uma obstrução respiratória.

Padrões hiperdivergente e hipodivergente

O padrão de crescimento facial descreve a direção em que os ossos da face se desenvolvem e a relação vertical entre suas estruturas. Dois termos utilizados na Ortodontia são hiperdivergente e hipodivergente.

No padrão hiperdivergente, existe uma tendência de crescimento mais vertical, geralmente acompanhada por maior altura da parte inferior da face e maior inclinação do plano mandibular. Esse conjunto de características é frequentemente associado à mordida aberta anterior.

No padrão hipodivergente, o crescimento apresenta uma direção comparativamente mais horizontal, com menor divergência entre determinadas bases ósseas. Esse padrão pode estar relacionado à mordida profunda e à redução da altura facial inferior.

Um estudo sobre padrões de crescimento craniofacial confirma a associação frequente entre o tipo hiperdivergente e a mordida aberta, assim como entre o tipo hipodivergente e a sobremordida acentuada. Essas relações ajudam a orientar o diagnóstico, mas não funcionam como regras: uma pessoa hiperdivergente não terá necessariamente mordida aberta, e uma pessoa hipodivergente pode não apresentar mordida profunda.

Na mordida profunda, também é necessário observar a posição dos dentes. A alteração pode ser esquelética, dentoalveolar — relacionada à posição e à erupção dos dentes — ou uma combinação das duas. Uma revisão publicada em 2023 descreve ainda a participação de fatores genéticos, ambientais e comportamentais nesse fenótipo.

Qual é a influência da genética?

A genética pode influenciar o formato dos ossos da face, as proporções verticais, a direção de crescimento da mandíbula e outras características relacionadas à oclusão. Isso ajuda a explicar por que determinados padrões faciais aparecem em diferentes integrantes de uma mesma família.

Essa influência não significa que a mordida esteja definida desde o nascimento ou que fatores ambientais sejam irrelevantes. Hábitos, funções orais, desenvolvimento dentário e crescimento interagem ao longo do tempo. A predisposição genética pode aumentar a possibilidade de determinada característica, mas não permite prever sozinha como a mordida se desenvolverá.

Tanto a mordida aberta quanto a profunda são consideradas fenótipos complexos. Estudos sobre essas alterações investigam possíveis componentes genéticos, porém ainda existem limitações para determinar quanto cada variante genética contribui para um caso individual.

Por isso, o histórico familiar é uma informação útil durante a consulta, mas não substitui o exame clínico. O ortodontista precisa reunir dados sobre crescimento facial, contatos dentários, postura da língua, respiração, hábitos e desenvolvimento dos dentes para compreender por que o problema vertical apareceu.

Identificar essa origem é importante porque alterações visualmente parecidas podem exigir condutas diferentes. Antes de considerar qualquer aparelho, é necessário entender se o problema está concentrado nos dentes, se envolve o padrão esquelético ou se permanece associado a hábitos e funções orais.

Como essas alterações podem afetar fala, mastigação e aparência?

As consequências da mordida aberta e da mordida profunda variam conforme a intensidade da alteração, sua origem e a forma como cada pessoa adapta as funções orais. Algumas percebem apenas uma diferença no sorriso, enquanto outras apresentam dificuldades para cortar alimentos, mudanças na fala ou desconfortos relacionados aos contatos dentários.

Isso significa que a presença de uma alteração vertical não determina automaticamente o seu impacto. A avaliação precisa considerar tanto a aparência da mordida quanto as funções realizadas pelos dentes, pela língua e pelos músculos.

Fala e posição da língua

A produção da fala depende da passagem do ar e do contato coordenado entre língua, dentes, lábios e outras estruturas da boca. Quando existe um espaço entre os incisivos, a língua pode assumir uma posição diferente para produzir determinados sons.

Uma revisão sistemática publicada em 2025 identificou associação frequente entre mordida aberta anterior e alterações na articulação da fala, especialmente em sons que dependem da posição da língua próxima aos dentes e do controle da passagem do ar. Os autores também observaram que a intensidade e o tipo de alteração variam entre os estudos.

Sons como “s”, “z”, “t” e “d” podem apresentar distorções em alguns casos, mas isso não significa que toda pessoa com mordida aberta terá dificuldade para falar. Um estudo com pacientes que apresentavam mordida aberta esquelética encontrou maior ocorrência de alterações perceptíveis e acústicas na fala em comparação com o grupo sem essa condição. Os resultados, porém, foram obtidos em um grupo específico e não devem ser generalizados para todos os tipos de mordida aberta.

Quando a postura da língua ou a articulação dos sons precisa de atenção, o ortodontista pode recomendar uma avaliação fonoaudiológica. O objetivo não é apenas observar como a língua se movimenta durante a fala, mas entender sua posição em repouso, na deglutição e nas demais funções orais.

Corte dos alimentos e eficiência mastigatória

Os incisivos participam principalmente do corte dos alimentos. Na mordida aberta anterior, a ausência de contato entre esses dentes pode dificultar ações como morder uma fruta, cortar um sanduíche ou separar alimentos mais firmes.

Nessas situações, a pessoa pode criar adaptações, usando os dentes laterais ou posteriores para executar uma função que normalmente começaria na região anterior. A dificuldade pode ser discreta ou mais evidente, dependendo do tamanho da abertura e das demais características da mordida.

Pesquisas também descrevem diferenças na atividade dos músculos e na função mastigatória de pessoas com mordida aberta esquelética. Um estudo publicado em 2024 identificou alterações na resposta relacionada à mastigação nesse grupo, o que reforça que o problema pode envolver não apenas a posição dos dentes, mas o funcionamento do sistema mastigatório.

Na mordida profunda, os incisivos mantêm contato, mas a sobreposição excessiva pode limitar determinados movimentos da mandíbula ou concentrar forças em algumas regiões. Estudos identificaram diferenças nos padrões de mastigação e na ativação muscular em pacientes com mordida profunda. Ainda assim, essas diferenças não significam que toda pessoa com sobremordida acentuada terá baixa eficiência mastigatória.

A capacidade de mastigar depende de vários elementos, como número de dentes em contato, saúde dentária, força muscular, movimentos mandibulares e consistência dos alimentos. Por isso, a profundidade da mordida não deve ser analisada de forma isolada.

Estética do sorriso e autoestima

Na mordida aberta, o espaço entre os dentes anteriores pode ficar visível ao sorrir ou falar. Algumas pessoas também apresentam dificuldade para manter os lábios fechados de maneira confortável, especialmente quando a alteração faz parte de um padrão facial mais vertical.

Na mordida profunda, os incisivos inferiores podem ficar pouco visíveis, e a relação entre os dentes e os lábios pode alterar a aparência do sorriso. Quando a sobreposição é acentuada, também pode existir uma percepção de menor altura na parte inferior da face, principalmente nos casos com componente esquelético.

Essas características não são necessariamente percebidas como um problema. O impacto estético depende das expectativas, das experiências e da forma como cada pessoa se sente em relação ao próprio sorriso.

Uma revisão sistemática de 2025 encontrou impactos da mordida aberta anterior na qualidade de vida relacionada à saúde bucal, principalmente nos aspectos funcionais e psicológicos ligados à fala, à alimentação e ao ato de sorrir. Os próprios autores, entretanto, apontaram limitações metodológicas nos estudos analisados.

Por isso, não é adequado afirmar que a mordida aberta ou profunda provoca baixa autoestima em todos os pacientes. Para algumas pessoas, a alteração não gera incômodo; para outras, pode influenciar a segurança ao sorrir, falar ou aparecer em fotografias.

As repercussões funcionais e estéticas ajudam a compreender a importância da avaliação, mas não são as únicas consequências possíveis. Em determinados casos, a distribuição dos contatos também pode estar relacionada a desgaste dentário, trauma nos tecidos ou sintomas na região da articulação temporomandibular.

Mordida vertical pode causar desgaste dentário ou DTM?

Alterações verticais da mordida podem modificar a forma como os dentes entram em contato e como as forças mastigatórias são distribuídas. Em alguns pacientes, isso favorece trauma nos tecidos ou desgaste dentário. Esses efeitos, porém, não são inevitáveis e precisam ser diferenciados de problemas causados por bruxismo, erosão, hábitos e outras condições.

A relação com a disfunção temporomandibular exige ainda mais cuidado. Mordida aberta ou profunda pode coexistir com dor, estalos e limitações dos movimentos mandibulares, mas a presença dessas alterações não comprova que elas sejam a causa da DTM.

Quando o encaixe favorece contatos e desgastes

Na mordida profunda acentuada, os incisivos inferiores podem tocar a parte posterior dos dentes superiores ou alcançar a gengiva e a mucosa do céu da boca. Quando esse contato provoca lesões, desconforto ou prejuízo aos tecidos, o quadro pode ser descrito como uma sobremordida traumática. A literatura reconhece que determinadas mordidas profundas podem comprometer a saúde dos dentes e dos tecidos de suporte, embora isso não aconteça em todos os casos.

Também podem surgir contatos concentrados em alguns dentes. Dependendo da posição dos incisivos, dos movimentos da mandíbula e da presença de outros fatores, esses contatos podem contribuir para facetas de desgaste, pequenas fraturas ou sensibilidade.

Na mordida aberta anterior, a ausência de contato entre os incisivos muda a forma como a pessoa corta e mastiga os alimentos. Os dentes posteriores podem assumir uma participação maior nessas funções, mas isso não permite concluir que haverá desgaste ou sobrecarga.

O desgaste dentário tem origem multifatorial. Atrito entre os dentes, bruxismo, alimentação ácida, refluxo, escovação inadequada e características das restaurações podem participar do processo. Por isso, encontrar dentes desgastados em uma pessoa com mordida profunda ou aberta não significa que a má oclusão seja a única responsável.

O diagnóstico deve considerar onde o desgaste aparece, qual é sua extensão, se continua avançando e quais fatores podem estar agindo ao mesmo tempo. Essa análise evita que o tratamento se concentre apenas no encaixe dos dentes e deixe de investigar outras causas relevantes.

A relação com a disfunção temporomandibular exige cautela

A disfunção temporomandibular, ou DTM, reúne alterações que podem envolver as articulações temporomandibulares, os músculos da mastigação e estruturas relacionadas. Dor na mandíbula ou na face, limitação de abertura, travamento e ruídos articulares acompanhados de desconforto estão entre os sinais que podem exigir avaliação.

A DTM não costuma ser explicada por um único fator. Aspectos musculares, articulares, comportamentais e psicossociais podem participar do quadro, assim como bruxismo, traumas e determinadas condições sistêmicas. O diagnóstico depende da história clínica e do exame funcional, podendo exigir exames complementares em situações específicas.

Alguns estudos encontram associações entre determinados tipos de má oclusão e sinais de DTM. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 observou ocorrência variável de DTM entre pessoas com diferentes más oclusões, incluindo mordida aberta. Os resultados apresentaram grande heterogeneidade, influenciada pelos critérios diagnósticos, pelas classificações da mordida e pelas características das populações estudadas. Isso limita conclusões sobre causa e efeito.

Outra revisão da literatura encontrou resultados consistentes com a ausência de uma associação clinicamente relevante entre oclusão dentária e DTM. Em conjunto, essas evidências indicam que a mordida pode ser um dos elementos observados, mas não deve ser considerada causa única ou dominante da disfunção.

Há ainda situações em que uma mordida aberta aparece como consequência de alterações articulares, e não como sua origem. Mudanças progressivas na articulação temporomandibular podem modificar a posição da mandíbula e alterar o contato entre os dentes. Por isso, uma abertura anterior que surge ou aumenta em pouco tempo merece investigação, principalmente quando acompanhada de dor, redução da abertura bucal ou mudança perceptível na posição da mandíbula.

Da mesma forma, corrigir a mordida não deve ser apresentado como garantia de prevenção ou cura da DTM. O tratamento ortodôntico tem objetivos relacionados ao posicionamento dos dentes e à organização da oclusão, enquanto o controle de uma disfunção temporomandibular depende do diagnóstico específico e pode envolver outras abordagens.

Para compreender melhor quais manifestações podem estar relacionadas aos músculos ou às articulações da mandíbula, o conteúdo sobre os principais sintomas de DTM e quando procurar ajuda apresenta os sinais que merecem avaliação específica.

Dor, estalos, desgaste ou desconforto durante a mastigação precisam ser analisados dentro do quadro completo. O passo seguinte é avaliar a posição dos dentes, os contatos da mordida, o padrão facial e o funcionamento da mandíbula para identificar a origem do problema.

Como o ortodontista identifica a origem do problema vertical?

O diagnóstico da mordida aberta ou profunda não se limita a medir a distância entre os incisivos. O ortodontista precisa investigar como os dentes se posicionam, quais contatos ocorrem durante o fechamento da boca, como a face se desenvolveu e se existem hábitos ou alterações funcionais relacionados ao problema.

Essa análise permite diferenciar uma alteração predominantemente dentária de um problema com componente esquelético. A distinção influencia o planejamento, pois duas mordidas aparentemente semelhantes podem exigir estratégias diferentes.

Avaliação dos dentes e dos contatos da mordida

O exame clínico começa pela observação da relação entre os dentes superiores e inferiores. Na região anterior, o ortodontista verifica se existe ausência de contato, qual é o grau de sobreposição dos incisivos e se os dentes estão inclinados ou posicionados de maneira inadequada.

Também é necessário examinar a região posterior. Em alguns casos de mordida aberta, os dentes posteriores entram em contato enquanto os anteriores permanecem afastados. Na mordida profunda, podem existir contatos excessivos entre os incisivos ou até sinais de trauma na gengiva e na mucosa próxima ao céu da boca.

Outros aspectos avaliados incluem:

  • posição e erupção dos dentes;
  • formato e largura das arcadas;
  • relação entre caninos e molares;
  • presença de contatos concentrados;
  • sinais de desgaste;
  • desvios durante a abertura e o fechamento;
  • saúde dos dentes e dos tecidos de suporte.

Na mordida profunda, a sobreposição aumentada pode ter origem esquelética, dentoalveolar ou combinar os dois componentes. Um estudo que comparou pacientes com e sem mordida profunda identificou diferenças tanto nas estruturas ósseas quanto na posição dos dentes, reforçando que a medida da sobremordida, sozinha, não explica o problema.

Fotografias e modelos das arcadas ajudam a documentar os contatos e a realizar medições. Os modelos digitais obtidos por escaneamento intraoral podem oferecer medidas confiáveis para diferentes finalidades ortodônticas e funcionar como alternativa aos modelos tradicionais de gesso.

Análise do padrão facial e do crescimento

O ortodontista também observa a face de frente e de perfil. Proporções faciais, altura do terço inferior da face, posição dos lábios, projeção do queixo e direção de crescimento da mandíbula podem indicar se existe um componente esquelético associado à alteração vertical.

Em uma mordida aberta esquelética, por exemplo, podem aparecer características compatíveis com crescimento mais vertical. Em uma mordida profunda com componente esquelético, pode haver menor divergência entre as bases ósseas e redução de algumas proporções verticais. Essas características não aparecem da mesma maneira em todos os pacientes.

A análise facial precisa ser relacionada ao exame da boca. Um estudo clássico mostrou que muitos pacientes com medidas cefalométricas indicativas de tendência vertical não apresentavam mordida aberta clínica. Isso significa que a radiografia não deve ser interpretada de forma isolada, assim como a aparência do sorriso não revela toda a estrutura óssea.

Em crianças e adolescentes, o estágio de crescimento recebe atenção especial. O ortodontista avalia o desenvolvimento da dentição e a maturação das estruturas faciais para compreender quais mudanças ainda podem acontecer.

A idade cronológica, isoladamente, não mostra todo o potencial de crescimento. Crianças da mesma idade podem estar em fases diferentes de desenvolvimento, e essa diferença pode influenciar tanto o momento da intervenção quanto os objetivos do acompanhamento.

Investigação das funções e dos hábitos

A entrevista clínica ajuda a identificar fatores que podem ter participado do desenvolvimento ou da manutenção da alteração. O ortodontista pode perguntar sobre uso prolongado de chupeta, sucção de dedo, postura habitual da boca, respiração, mastigação, deglutição e dificuldades percebidas na fala.

A língua também deve ser observada em diferentes situações. Sua posição durante o repouso pode ser tão importante quanto o movimento realizado ao engolir. Em alguns pacientes, ela exerce pressão entre os dentes; em outros, ocupa o espaço anterior como uma adaptação à mordida já existente.

Uma revisão sobre o comportamento da língua na mordida aberta destaca que ela pode participar como fator de origem, influência ou manutenção, mas também pode ser consequência da própria alteração. Essa complexidade impede que a interposição lingual seja diagnosticada apenas pela observação de um movimento isolado.

A respiração predominantemente bucal também precisa ser investigada, principalmente quando há dificuldade para respirar pelo nariz, ronco, sono agitado ou permanência frequente da boca aberta. O ortodontista pode identificar sinais que justificam uma avaliação complementar, mas o diagnóstico de obstruções respiratórias pertence ao profissional responsável por essa área.

Conforme os achados, o atendimento pode envolver outros profissionais. O fonoaudiólogo pode avaliar postura e função da língua, fala e deglutição, enquanto o otorrinolaringologista investiga possíveis alterações nas vias aéreas. Essa participação não é necessária em todos os casos, mas pode ser importante quando o problema ultrapassa a posição dos dentes.

Exames que complementam o diagnóstico

Os exames são escolhidos de acordo com as necessidades de cada paciente. Não existe um conjunto idêntico e obrigatório para todas as pessoas com mordida aberta ou profunda.

Entre os registros que podem ser utilizados estão:

  • fotografias da face e da boca;
  • escaneamento intraoral ou modelos das arcadas;
  • radiografia panorâmica;
  • telerradiografia lateral;
  • análise cefalométrica;
  • outros exames de imagem, quando houver indicação específica.

A análise cefalométrica utiliza medidas obtidas em uma radiografia lateral da face. Ela auxilia na avaliação da posição dos dentes, da relação entre maxila e mandíbula, da inclinação do plano mandibular e das proporções verticais.

A literatura ortodôntica considera a análise cefalométrica um recurso importante para o diagnóstico diferencial das alterações verticais. Estudos mais recentes também mostram que determinadas medidas ajudam a distinguir características esqueléticas e dentárias associadas à mordida aberta.

Isso não significa que uma única medida estabeleça o diagnóstico ou determine o tratamento. Os resultados precisam ser interpretados em conjunto com o exame clínico, as fotografias, os modelos, a idade, o padrão facial e as queixas do paciente.

O objetivo dos exames não é apenas confirmar que existe uma mordida aberta ou profunda. Eles ajudam a responder perguntas mais importantes: onde está a alteração, quais estruturas participam do problema e quais movimentos seriam necessários para alcançar um encaixe mais equilibrado.

Somente depois de reunir essas informações é possível avaliar as formas de tratamento. A idade, a fase de crescimento, a intensidade da alteração e sua origem dentária ou esquelética influenciam diretamente as possibilidades de correção.

O tratamento depende da idade e da causa da alteração

Não existe um único aparelho indicado para todas as pessoas com mordida aberta ou mordida profunda. O planejamento depende da origem da alteração, da fase de crescimento, da posição dos dentes, das proporções faciais e das funções orais envolvidas.

O tratamento pode buscar movimentos diferentes. Na mordida aberta, pode ser necessário controlar a posição dos dentes posteriores, aproximar os incisivos ou combinar essas estratégias. Na mordida profunda, a correção pode envolver a intrusão dos dentes anteriores — movimentação em direção ao osso —, a extrusão dos dentes posteriores ou uma combinação de movimentos.

A escolha não depende apenas da quantidade de abertura ou sobreposição entre os incisivos. O ortodontista também considera:

  • se a alteração é predominantemente dentária ou esquelética;
  • se o paciente ainda está em crescimento;
  • a inclinação e a exposição dos incisivos;
  • a altura e as proporções da face;
  • a presença de hábitos de sucção;
  • a postura e a função da língua;
  • o padrão respiratório;
  • a saúde dos dentes, da gengiva e dos tecidos de suporte;
  • a estabilidade esperada após a correção.

Tratamento durante o crescimento

Em crianças e adolescentes, o crescimento pode fazer parte do planejamento. Dependendo do diagnóstico, a intervenção busca reduzir fatores que estejam contribuindo para o problema, orientar o desenvolvimento da oclusão e aproveitar o potencial de adaptação dos dentes e das estruturas faciais.

Na mordida aberta associada à sucção de dedo ou chupeta, por exemplo, a interrupção do hábito pode ser uma etapa importante. Isso não significa que abandonar o hábito corrigirá todos os casos. Quando existem alterações dentárias mais acentuadas, postura lingual inadequada ou componente esquelético, pode ser necessário acompanhamento adicional.

Uma revisão sistemática publicada em 2025 concluiu que diferentes intervenções precoces podem reduzir a mordida aberta durante a dentição mista, principalmente por mudanças dentoalveolares. Os autores ressaltaram que a escolha do aparelho deve considerar a etiologia e os objetivos do tratamento, e não seguir uma indicação padronizada.

Entre os recursos que podem ser avaliados estão aparelhos removíveis, grades para controle de hábitos, dispositivos funcionais, aparelhos fixos e estratégias ortopédicas. A indicação varia conforme o comportamento que precisa ser modificado e o movimento dentário ou esquelético planejado.

A mordida profunda durante o crescimento também pode receber abordagens diferentes. Em alguns pacientes, o objetivo é controlar a erupção dos incisivos; em outros, favorecer a erupção dos dentes posteriores ou modificar sua relação vertical. Uma revisão sobre o tratamento da mordida profunda em pacientes em crescimento identificou diferentes métodos de correção, mas concluiu que ainda não há evidência suficiente para apontar uma técnica como superior em todas as situações.

Por isso, tratamento precoce não significa colocar aparelho o mais cedo possível. Significa avaliar no momento adequado e intervir quando houver um benefício clínico claro.

Para entender por que a melhor época varia de acordo com o tipo de alteração e a fase de desenvolvimento, o conteúdo sobre a idade ideal para colocar aparelho apresenta outros critérios considerados na decisão de acompanhar ou iniciar o tratamento.

Tratamento em adultos

Em adultos, o crescimento facial já está praticamente concluído. O tratamento ortodôntico pode movimentar os dentes e modificar a relação entre as arcadas, mas não produz as mesmas respostas ortopédicas possíveis durante o desenvolvimento.

Nos casos predominantemente dentários, aparelhos fixos ou alinhadores podem ser utilizados para corrigir a posição dos incisivos, controlar os dentes posteriores e melhorar a sobremordida. A escolha depende dos movimentos necessários, das condições dos tecidos de suporte e da capacidade de controlar as forças aplicadas.

Uma revisão estratégica publicada em 2024 descreve diferentes possibilidades para o tratamento da mordida aberta anterior, desde recursos ortodônticos convencionais até ancoragem esquelética e cirurgia ortognática. A seleção depende da classificação, da gravidade e do componente dentário ou esquelético da alteração.

A ancoragem esquelética utiliza dispositivos temporários fixados ao osso para auxiliar movimentos que podem ser difíceis de controlar apenas com apoio nos dentes. Em determinados casos de mordida aberta, esses recursos podem ajudar na intrusão dos molares e favorecer a rotação da mandíbula. Eles não são necessários para todos os pacientes e somente podem ser considerados depois da avaliação clínica e dos exames.

Quando a alteração esquelética é acentuada e compromete de maneira importante as proporções faciais e o encaixe das arcadas, a cirurgia ortognática pode fazer parte das alternativas discutidas. Essa indicação exige avaliação conjunta e não deve ser presumida apenas pela presença de mordida aberta ou profunda.

Aparelho fixo ou alinhadores: a ferramenta vem depois do diagnóstico

Aparelhos fixos e alinhadores transparentes podem participar do tratamento de alterações verticais. A escolha, entretanto, não deve começar pela preferência por uma técnica, mas pelos movimentos que precisam ser realizados.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 encontrou resultados favoráveis dos alinhadores no tratamento da mordida aberta anterior em adultos. Os estudos incluídos, porém, apresentaram diferenças entre protocolos e características dos pacientes, o que exige cautela ao aplicar os resultados a qualquer caso.

Na mordida profunda dentoalveolar leve ou moderada, alinhadores também podem reduzir a sobreposição dos incisivos. Uma revisão de 2025 observou, contudo, que a correção obtida nem sempre corresponde completamente ao movimento previsto no planejamento digital e que as evidências são mais incertas nos casos esqueléticos.

Isso significa que o planejamento digital oferece informações importantes, mas não transforma o tratamento em um processo automático. O resultado depende do diagnóstico, da programação biomecânica, da resposta biológica e da colaboração do paciente com o uso do aparelho e de recursos complementares.

Para aprofundar essa diferença entre escolher um alinhador e planejar os movimentos necessários, o artigo sobre Invisalign para casos complexos e previsibilidade do tratamento explica por que a tecnologia funciona como uma ferramenta dentro de uma estratégia clínica mais ampla.

Funções orais também podem precisar de acompanhamento

Movimentar os dentes pode não ser suficiente quando permanecem fatores relacionados à postura da língua, à deglutição, à fala ou à respiração. Dependendo do diagnóstico, o tratamento ortodôntico pode ser associado ao acompanhamento de um fonoaudiólogo ou à avaliação de um otorrinolaringologista.

Essa integração não deve ser indicada automaticamente para toda pessoa com mordida aberta. Ela se torna pertinente quando o exame identifica alterações funcionais ou sinais de que outro sistema também precisa ser investigado.

O objetivo é evitar que os dentes sejam reposicionados sem considerar uma função capaz de interferir no equilíbrio alcançado. Essa atenção pode ser especialmente importante na mordida aberta, cuja estabilidade depende da origem do problema, da gravidade, do controle dos fatores associados e do protocolo de contenção. Uma revisão sobre tratamentos não cirúrgicos encontrou resultados favoráveis, mas também destacou limitações na qualidade e na quantidade das evidências disponíveis para avaliar a estabilidade em longo prazo.

A contenção faz parte do tratamento

Depois da movimentação ortodôntica, os dentes precisam de um período de estabilização. A contenção ajuda a manter as posições alcançadas enquanto os tecidos se reorganizam.

Na mordida aberta, o planejamento da estabilidade recebe atenção especial porque hábitos persistentes, postura lingual, padrão de crescimento e gravidade inicial podem influenciar a manutenção do resultado. Na mordida profunda, também pode ocorrer alguma mudança após o tratamento, embora uma revisão sistemática tenha encontrado correções geralmente estáveis nos estudos avaliados. Os próprios autores classificaram a qualidade das evidências como limitada.

A contenção não corrige hábitos nem trata alterações respiratórias. Por isso, quando esses fatores estão presentes, o acompanhamento precisa contemplá-los desde o diagnóstico.

Em qualquer idade, o tratamento deve responder a três perguntas: qual estrutura precisa ser modificada, quais movimentos são necessários e como o resultado poderá ser mantido. É essa combinação que permite escolher entre acompanhamento, aparelho fixo, alinhadores, recursos auxiliares ou outras alternativas.

Quando procurar uma avaliação ortodôntica?

A avaliação ortodôntica é indicada quando a falta de contato ou a sobreposição excessiva entre os dentes interfere na função, provoca trauma nos tecidos, causa incômodo estético ou apresenta sinais de progressão. Ela também pode ser realizada preventivamente durante o crescimento, antes que a alteração provoque sintomas.

Não é necessário esperar por dor para procurar um ortodontista. Muitas alterações da mordida se desenvolvem de forma gradual e são percebidas primeiro pela aparência dos dentes, pela dificuldade para morder ou por adaptações na maneira de mastigar.

Sinais de mordida aberta anterior

A ausência de contato entre os dentes da frente pode ser observada quando a pessoa fecha a boca normalmente, mas ainda permanece um espaço entre os incisivos superiores e inferiores. A British Orthodontic Society utiliza justamente essa falta de contato anterior, enquanto os dentes posteriores se encontram, para explicar a mordida aberta.

Alguns sinais que justificam uma avaliação são:

  • espaço persistente entre os dentes anteriores com a boca fechada;
  • dificuldade para cortar alimentos com os incisivos;
  • necessidade de usar os dentes laterais para morder;
  • língua frequentemente posicionada entre os dentes;
  • alterações percebidas na articulação de determinados sons;
  • manutenção prolongada da sucção de dedo ou chupeta;
  • respiração predominantemente pela boca;
  • aumento perceptível da abertura ao longo do tempo.

A presença de um desses sinais não permite determinar a causa nem confirma a necessidade de aparelho. O exame é necessário para verificar se a alteração está concentrada na posição dos dentes, se envolve o crescimento facial ou se existe um fator funcional associado.

Sinais de mordida profunda

A mordida profunda pode ser percebida quando os incisivos superiores cobrem uma parte muito acentuada dos inferiores. Em algumas pessoas, os dentes inferiores ficam pouco visíveis ao fechar a boca ou sorrir.

A avaliação se torna especialmente importante quando existem:

  • sobreposição acentuada dos incisivos;
  • contato dos dentes inferiores com a região posterior dos superiores;
  • marcas ou feridas na gengiva ou no céu da boca;
  • desgaste localizado nos dentes anteriores;
  • sensibilidade, pequenas fraturas ou danos recorrentes em restaurações;
  • dificuldade ou desconforto em determinados movimentos da mandíbula;
  • incômodo com a aparência do sorriso.

A American Association of Orthodontists aponta que mordidas profundas podem estar relacionadas a desgaste excessivo e danos dentários, principalmente quando os contatos são acentuados. Isso não significa que toda sobremordida aumentada causará esses problemas, mas sinais de trauma ou desgaste merecem investigação.

Mudanças rápidas na mordida também precisam ser investigadas

Uma mordida aberta ou profunda que sempre esteve presente tende a ter uma história diferente de uma alteração que surgiu ou aumentou recentemente. Mudanças rápidas no encaixe dos dentes podem estar relacionadas a movimentações dentárias, perda de suporte, trauma ou alterações na posição da mandíbula.

É recomendável procurar avaliação quando a mudança vier acompanhada de:

  • dor na face ou na mandíbula;
  • limitação ou travamento ao abrir a boca;
  • alteração repentina na forma de mastigar;
  • dificuldade para encontrar uma posição confortável de fechamento;
  • assimetria que não era percebida anteriormente;
  • trauma na região da face ou dos dentes.

Esses sinais não indicam necessariamente uma condição grave, mas justificam uma análise mais cuidadosa para identificar a origem da mudança.

Crianças e adultos podem ser avaliados

Durante a infância, a avaliação permite acompanhar a troca dos dentes, os hábitos orais, o padrão respiratório e o crescimento das estruturas faciais. Nem toda alteração observada nessa fase precisa de tratamento imediato. Em alguns casos, o acompanhamento periódico é a conduta mais adequada.

O objetivo não é colocar aparelho precocemente por rotina, mas reconhecer situações nas quais esperar pode dificultar a correção ou permitir que um hábito continue interferindo no desenvolvimento da mordida.

Nos adultos, a avaliação continua sendo possível mesmo que a alteração exista há muitos anos. O crescimento já concluído modifica as possibilidades terapêuticas, mas não impede a movimentação ortodôntica. O diagnóstico deve considerar a saúde dos dentes e da gengiva, possíveis desgastes, restaurações existentes e a presença de componentes esqueléticos.

A American Association of Orthodontists inclui mordida aberta e mordida profunda entre os desequilíbrios que também podem ser tratados na vida adulta, desde que o planejamento considere a origem e a gravidade do problema.

A aparência é apenas uma parte da avaliação

Fotografias do sorriso podem mostrar que existe um espaço ou uma sobreposição acentuada entre os dentes, mas não revelam todos os fatores envolvidos. Para compreender o problema vertical, o ortodontista precisa examinar os contatos, o padrão facial, os movimentos mandibulares e as funções orais.

A indicação de tratamento depende do impacto da alteração e do que o diagnóstico identifica. Uma mordida discreta, estável e sem consequências funcionais pode exigir uma conduta diferente de um caso com trauma, dificuldade mastigatória ou componente esquelético importante.

Por isso, a consulta não deve começar pela escolha entre aparelho fixo e alinhadores. O primeiro passo é entender como a mordida se formou, quais estruturas estão envolvidas e se existe benefício real em corrigi-la.

Avaliar a mordida por completo é o primeiro passo

A mordida aberta e a mordida profunda são alterações opostas no plano vertical, mas ambas podem envolver diferentes combinações entre posição dentária, crescimento facial, hábitos e funções orais.

Por isso, observar apenas o espaço ou a sobreposição entre os dentes da frente não é suficiente para definir a origem do problema nem a melhor forma de tratamento. O diagnóstico precisa considerar os contatos da mordida, o padrão facial, a fase de crescimento, a postura da língua, a respiração e os possíveis impactos na fala, na mastigação e nos tecidos.

Também é importante evitar conclusões automáticas. Nem toda mordida aberta está relacionada à chupeta ou à língua, assim como nem toda mordida profunda provoca desgaste, dor ou DTM. Cada caso precisa ser analisado individualmente.

Se você percebe falta de contato ou sobreposição excessiva entre os dentes da frente, posso avaliar como essa característica se relaciona ao seu padrão facial, à função da mordida e às suas necessidades.

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