Quando a mordida cruzada posterior acontece porque a maxila é estreita, o tratamento costuma seguir uma lógica bem intuitiva: ampliar o arco superior para que ele volte a encaixar corretamente com a arcada de baixo. É justamente aí que entram os expansores, aparelhos ortodônticos criados para “alargar” essa estrutura de forma planejada e segura.
Embora muita gente conheça esse tratamento apenas pelo nome “expansor”, existem modelos diferentes, com velocidades diferentes de ação e indicações específicas para cada fase da vida. Ao longo deste artigo, você vai entender de forma simples o que muda entre disjuntores como Haas e Hyrax, aparelhos de expansão lenta como o quadrihélice e as placas removíveis, além de saber quando cada opção costuma ser indicada, quanto tempo o tratamento tende a durar e o que a ciência mostra sobre estabilidade e contenção. Estudos clínicos e revisões sistemáticas mostram que a expansão da maxila é um tratamento bastante estudado para mordida cruzada posterior, com boa previsibilidade quando há diagnóstico correto e contenção adequada.
O que são expansores para mordida cruzada posterior?
Os expansores são aparelhos usados para aumentar a largura da arcada superior quando ela é mais estreita do que a inferior. Em muitos casos de mordida cruzada posterior, o problema central é justamente esse: o “arco de cima” ficou apertado e passa a encaixar por dentro dos dentes de baixo, quando o normal seria o contrário.
Em uma comparação simples, é como tentar encaixar uma tampa menor em um recipiente mais largo. Enquanto essa diferença de largura existir, o encaixe da mordida tende a ficar desalinhado. O expansor entra em cena para corrigir essa discrepância transversal e devolver um encaixe mais equilibrado entre as arcadas.
Esses aparelhos podem ser fixos, quando ficam presos aos dentes e não são removidos pelo paciente, ou removíveis, quando podem ser colocados e retirados conforme a orientação do ortodontista. Nos dois casos, o objetivo é parecido: abrir espaço na arcada superior e melhorar o encaixe da mordida, embora a forma de ação, a velocidade e o grau de dependência da colaboração variem bastante.
Além de ajudar na correção da mordida cruzada posterior, a expansão pode contribuir para criar melhores condições para o alinhamento dentário e para um desenvolvimento mais harmonioso da maxila. Ainda assim, o expansor não é uma “peça padrão” que serve igual para todo mundo. O aparelho ideal depende da idade, do tipo de mordida cruzada e do quanto a alteração é mais dentária ou mais esquelética. Estudos comparando expansão rápida e lenta mostram justamente que diferentes aparelhos podem funcionar bem quando são bem indicados.
Quando os expansores são indicados
Os expansores são indicados principalmente quando existe constrição transversal da maxila, ou seja, quando a maxila é mais estreita do que deveria. Esse quadro aparece com frequência em crianças com mordida cruzada posterior, seja de um lado só ou dos dois lados, e costuma ser uma das indicações clássicas de expansão ortopédica ou ortodôntica.
Na infância e na dentição mista, essa abordagem costuma ser especialmente útil porque ainda existe potencial de crescimento e maior possibilidade de obter efeitos esqueléticos reais. Em outras palavras, nessa fase da vida muitas vezes não estamos apenas inclinando dentes, mas também ampliando a base óssea de forma mais favorável. É por isso que o tratamento precoce da mordida cruzada posterior costuma ser tão valorizado na Ortodontia.
Por outro lado, nem toda mordida cruzada posterior precisa do mesmo tipo de expansor. Em alguns pacientes, o problema é predominantemente dentário; em outros, a deficiência é mais esquelética. Essa diferença muda tudo no planejamento. O ortodontista avalia se a maxila realmente está estreita, qual é a idade do paciente, como estão os dentes e o osso de suporte e qual aparelho tem mais chance de corrigir com estabilidade e menos efeitos colaterais.
Esse ponto é essencial porque o diagnóstico detalhado vale mais do que o nome do aparelho. Antes de indicar disjuntor, quadrihélice ou placa removível, o profissional analisa a mordida clinicamente e, quando necessário, complementa com radiografias, fotografias, modelos digitais e até tomografia. A escolha correta começa no diagnóstico, não no parafuso. Em adolescentes e adultos, essa individualização se torna ainda mais importante, já que a possibilidade de expansão puramente esquelética tende a diminuir com a maturação da sutura palatina.
Principais tipos de expansores: Haas, Hyrax, quadrihélice e placas removíveis
Disjuntores tipo Haas e Hyrax (fixos, “parafusinho no céu da boca”)
Quando pais e pacientes falam em “expansor com parafusinho no céu da boca”, geralmente estão se referindo aos disjuntores do tipo Haas ou Hyrax. Os dois são aparelhos fixos, presos aos dentes, com um parafuso central que vai sendo ativado de forma controlada para aumentar a largura da maxila. A lógica é simples: o aparelho aplica uma força planejada para “abrir” um arco superior que está estreito demais para encaixar corretamente.
O Haas costuma ter uma estrutura com bandas nos molares, um parafuso central e uma base acrílica que toca o palato. Já o Hyrax é mais “aberto”, metálico, sem essa cobertura acrílica no céu da boca. Na prática clínica, ambos são muito conhecidos na expansão rápida da maxila e podem ser bastante eficazes quando a indicação é correta.
Eles são chamados de disjuntores porque, nas crianças, conseguem promover um efeito ortopédico importante, com abertura da sutura palatina mediana, e não apenas inclinação dos dentes. Em linguagem simples, isso significa que o tratamento pode agir também sobre a base óssea da maxila, e não só “empurrar dentes para fora”. Um ensaio clínico randomizado com acompanhamento de 1 ano mostrou abertura real da sutura palatina e efeitos esqueléticos mensuráveis após a expansão rápida da maxila.
Outro ponto que ajuda a tranquilizar as famílias é saber que o período de ativação costuma ser relativamente curto, embora os primeiros dias possam trazer sensação de pressão, peso nos dentes e desconforto passageiro. Isso não quer dizer que o tratamento seja “agressivo”; quer dizer apenas que ele trabalha com uma força mais concentrada em um tempo menor. Depois dessa fase, o aparelho normalmente permanece na boca como contenção para ajudar a estabilizar o ganho obtido.
Quadrihélice (fixo, expansão lenta)
O quadrihélice é outro aparelho muito usado no tratamento da mordida cruzada posterior, especialmente em crianças na dentição mista. Ele é feito com um fio metálico adaptado aos molares superiores, com alças que permitem ao ortodontista ativar o aparelho periodicamente para promover uma expansão mais gradual. Em vez de depender de um parafuso girado em casa, o controle fica mais concentrado nas consultas.
Na linguagem do dia a dia, dá para pensar no quadrihélice como um expansor que “abre aos poucos”. Em muitos casos, isso é uma vantagem porque o desconforto tende a ser mais suave e a criança não precisa passar pela rotina de ativações diárias feitas pelos pais. Para famílias que ficam inseguras com o parafuso do disjuntor, esse pode ser um caminho bastante interessante.
Do ponto de vista científico, o quadrihélice tem uma boa história no tratamento da mordida cruzada posterior. Estudos com crianças em dentição mista mostram boa taxa de correção e estabilidade satisfatória, especialmente quando o problema é identificado cedo e a fase de contenção é respeitada. Em ensaio clínico randomizado recente, tanto o quadrihélice quanto a expansão rápida corrigiram a mordida cruzada posterior, embora a expansão rápida tenha mostrado efeitos esqueléticos mais marcados.
Placas removíveis expansoras
As placas removíveis expansoras também têm parafuso no centro, mas, diferentemente do Haas ou do Hyrax, não ficam coladas nos dentes o tempo todo. O paciente coloca e tira a placa conforme a orientação do ortodontista, e a ativação do parafuso costuma ser feita em casa, pelos pais ou pelo próprio paciente, sempre de acordo com a prescrição profissional.
Elas podem funcionar bem, sobretudo em crianças colaboradoras, porque dependem muito do uso correto. E aqui está o ponto-chave: um bom aparelho removível mal utilizado costuma ter desempenho pior do que um aparelho fixo mais simples, justamente porque a placa só trabalha quando está na boca pelo tempo necessário. Em outras palavras, o sucesso desse tipo de expansor depende bastante da rotina da família e da cooperação da criança.
Diversos estudos mostram que placas removíveis podem, sim, corrigir a mordida cruzada posterior, mas muitas vezes apresentam taxa de sucesso um pouco menor quando comparadas a aparelhos fixos, exatamente por dependerem mais da colaboração. Por isso, o ortodontista não escolhe apenas o aparelho “tecnicamente ideal”; ele também considera o perfil do paciente, a idade e a chance real de adesão ao tratamento.
Eficiência geral e comparação entre aparelhos
Quando olhamos para a literatura de forma prática, a conclusão mais útil para pais e pacientes é esta: Haas, Hyrax, quadrihélice e placas removíveis podem funcionar bem no tratamento da mordida cruzada posterior quando o caso é bem diagnosticado, o aparelho é bem indicado e a contenção é levada a sério. Um estudo retrospectivo e comparações de longo prazo mostram que expansão rápida e lenta podem apresentar estabilidade semelhante em muitos casos.
Isso ajuda a derrubar uma ideia comum de que existe um “melhor expansor universal”. Na prática, o nome do aparelho importa menos do que três fatores: diagnóstico correto, execução adequada e acompanhamento cuidadoso. Em linguagem simples, o melhor expansor não é o mais famoso, e sim o mais adequado para aquela mordida, naquela idade e naquele padrão de colaboração.
Expansão rápida x expansão lenta: qual a diferença?
O que é expansão rápida da maxila (RME)
Na expansão rápida da maxila, o parafuso do aparelho é ativado com mais frequência, geralmente em um ritmo diário orientado pelo ortodontista. Isso faz com que a força aplicada seja mais intensa em um período curto, buscando aumentar a largura da maxila de forma mais acelerada. Em crianças, esse tipo de mecânica pode produzir não só movimentação dentária, mas também abertura real da sutura palatina mediana, o que explica seu efeito mais ortopédico.
Em linguagem simples, é como ampliar uma estrutura ainda em fase de crescimento, aproveitando uma “linha de união” óssea que ainda responde melhor ao tratamento. Por isso, disjuntores como Haas e Hyrax costumam ser associados à expansão rápida, especialmente em pacientes mais jovens, nos quais o potencial esquelético é mais favorável.
Estudos com tomografia e ensaios clínicos mostram justamente esse ponto: em crianças com mordida cruzada posterior, a RME pode produzir aumento esquelético mensurável da largura da maxila, com abertura verdadeira da sutura, e não apenas inclinação dos dentes para fora. Isso ajuda a entender por que a expansão rápida costuma ser tão lembrada quando existe uma maxila claramente estreita.
O que é expansão lenta (SME)
A expansão lenta da maxila acontece de forma mais gradual. Ela é comum com aparelhos como quadrihélice e, em alguns casos, com placas removíveis expansoras, que promovem o aumento da largura ao longo de um período mais progressivo. Em vez de uma abertura mais intensa em poucos dias, a ideia aqui é construir a correção aos poucos.
De maneira prática, a expansão lenta tende a ter um componente dentoalveolar mais importante. Isso significa que parte relevante da correção acontece pela adaptação do osso ao redor dos dentes e por inclinações controladas, e não por uma abertura brusca da sutura como se observa mais claramente em muitas expansões rápidas feitas em crianças.
Ainda assim, isso não significa que a expansão lenta seja “inferior”. Pelo contrário: estudos com acompanhamento longitudinal mostram que, em muitos casos, a estabilidade de longo prazo da expansão lenta e da expansão rápida pode ser bastante semelhante. Em outras palavras, quando a indicação é boa e a contenção é adequada, ambas podem corrigir a mordida cruzada posterior com resultados duradouros.
Vantagens e desvantagens para o paciente
Para quem está tentando entender a diferença no dia a dia, dá para resumir assim: a expansão rápida costuma ter um tempo de ativação menor, porém geralmente provoca mais sensação de pressão nos primeiros dias. Em compensação, costuma oferecer um efeito esquelético mais evidente em crianças, o que é muito útil quando a maxila está realmente estreita.
Já a expansão lenta costuma ser percebida como mais suave por muitos pacientes, justamente porque as forças são distribuídas de maneira mais gradual. Por outro lado, ela pode exigir mais controles ao longo do tempo e, no caso das placas removíveis, depende bastante da colaboração no uso diário.
Na prática, não existe uma resposta única para a pergunta “qual é melhor?”. A escolha entre expansão rápida e lenta depende da idade, do grau de constrição da maxila, do tipo de mordida cruzada, do padrão de colaboração e da estratégia clínica do ortodontista. O mais importante não é escolher o aparelho mais conhecido, e sim o mais adequado para aquele caso específico.
Idade ideal para expansão esquelética (infância e dentição mista)
Por que a infância é a “janela de oportunidade”
Quando a mordida cruzada posterior está ligada a uma maxila estreita, a infância costuma ser a fase mais favorável para tratamento com expansores. O motivo é simples: nessa etapa, a sutura palatina mediana, que funciona como uma linha de união entre as metades da maxila, ainda oferece menor resistência. Em termos práticos, isso significa que o tratamento consegue agir com mais facilidade sobre a base óssea, e não apenas inclinar dentes.
É por isso que muitos ortodontistas consideram a dentição decídua e, principalmente, a dentição mista, como uma verdadeira janela de oportunidade para expansão esquelética. Em vários estudos clínicos sobre mordida cruzada posterior, os pacientes tratados nessa fase têm idade média em torno de 8 a 10 anos, justamente porque ainda existe bom potencial para resposta ortopédica. No ensaio clínico randomizado mais recente que comparou expansão rápida e quadrihélice, por exemplo, a média de idade foi de 9,5 anos.
Em linguagem simples, tratar cedo costuma ser como corrigir um arco que ainda está mais “maleável”. Isso não quer dizer que toda criança com mordida cruzada posterior deva receber exatamente o mesmo aparelho, mas mostra por que tantos casos são abordados ainda na infância: nessa fase, a expansão tende a ser mais previsível, com melhor chance de ganho esquelético e menor dependência de compensações dentárias.
O que acontece se a expansão é feita mais tarde
À medida que o paciente cresce, a possibilidade de obter uma expansão verdadeiramente esquelética vai diminuindo. Em adolescentes mais velhos e, sobretudo, em adultos, a sutura palatina e outras resistências ósseas passam a oferecer maior oposição ao tratamento. Com isso, uma parte maior da correção tende a acontecer por inclinação dentária e adaptação dentoalveolar, e não por abertura efetiva da base óssea da maxila.
Na prática, isso não significa que “já passou da idade” e não há mais o que fazer. Significa apenas que o planejamento fica mais delicado. Quanto mais tarde a expansão é tentada, maior pode ser o risco de efeitos indesejados, como excesso de inclinação dos dentes e impacto sobre o osso de suporte, especialmente se a deficiência transversal for importante.
Por isso, em adolescentes e adultos, o ortodontista precisa avaliar com ainda mais cuidado até onde a expansão com aparelho é previsível e segura. Em alguns casos, ela ainda é possível; em outros, quando a deficiência é maior e a resistência óssea já está avançada, pode ser necessário considerar uma abordagem cirúrgica assistida.
Estabilidade e tempo de contenção após a expansão
Quanto tempo o expansor deve ficar como contenção
Depois que a largura desejada é alcançada, o expansor normalmente não é removido na mesma hora. Ele costuma ficar um período “parado”, funcionando como contenção, para dar tempo de o osso e os tecidos ao redor se reorganizarem. Em linguagem simples, não basta abrir o arco superior; é preciso dar ao organismo tempo para “memorizar” essa nova largura.
Essa fase é importante porque a expansão cria uma mudança real no encaixe da mordida, e o corpo precisa estabilizar esse novo formato. A revisão sistemática sobre contenção após expansão maxilar em pacientes em crescimento encontrou períodos muito variados na literatura, indo de 4 semanas a 16 meses. Ainda assim, os autores observaram que, de modo geral, um período em torno de 6 meses de contenção com aparelho fixo ou removível costuma ser suficiente para boa estabilidade em curto prazo.
Na prática clínica, isso ajuda a responder uma dúvida comum dos pais: o tratamento não termina quando o parafuso para de ser ativado. Muitas vezes, a fase mais silenciosa do processo, em que aparentemente “nada está acontecendo”, é justamente a que ajuda a evitar que a mordida volte para a posição anterior.
O que os estudos mostram sobre recidiva
Quando se fala em mordida cruzada posterior, uma das maiores preocupações é saber se “vai voltar tudo depois”. A boa notícia é que os estudos de acompanhamento a médio e longo prazo mostram uma estabilidade geralmente boa quando o caso é bem indicado e a contenção é respeitada. Em estudos longitudinais, a correção obtida com expansão rápida e lenta apresentou estabilidade semelhante no longo prazo em muitos pacientes.
Em trabalhos com seguimento de anos após o tratamento, cerca de 80% dos casos corrigidos permaneceram estáveis, embora possa ocorrer uma pequena perda de largura ao longo do tempo. Essa perda costuma ficar na faixa de aproximadamente 1 a 1,5 mm em algumas medidas, algo que muitas vezes é clinicamente pequeno e não significa retorno completo da mordida cruzada.
Alguns estudos com aparelhos do tipo Haas mantidos como contenção por cerca de 7 a 8 meses também relataram recidiva mínima, inclusive com perda muito pequena na distância intermolar. Em termos práticos, isso reforça uma mensagem importante: a fase de contenção é tão importante quanto a fase de ativação. Não adianta expandir bem e relaxar justamente no momento em que o resultado precisa amadurecer.
Contenção adicional após remoção do expansor
Em muitos casos, depois que o expansor é removido, o tratamento não termina ali. O ortodontista pode indicar uma contenção removível, como uma placa tipo Hawley, ou seguir com aparelho fixo ou alinhadores, dependendo da fase dentária e do objetivo final do tratamento.
Isso acontece porque corrigir a largura da maxila é uma parte importante do processo, mas às vezes ainda é necessário alinhar dentes, ajustar contatos e manter a nova forma da arcada com mais precisão. Por isso, o plano de contenção não é igual para todo mundo. Ele é individualizado e deve ser explicado com clareza à família, levando em conta idade, tipo de aparelho usado, estabilidade obtida e próximos passos do tratamento.
Expansão no adolescente e no adulto: até onde é possível?
Expansão dentoalveolar em adolescentes
Na adolescência, ainda pode ser possível ampliar a arcada superior com aparelhos expansores, mas o comportamento da maxila já não é o mesmo da infância. À medida que o crescimento avança, a sutura palatina tende a oferecer mais resistência, e isso faz com que uma parte maior da correção aconteça por inclinação dos dentes e adaptação do osso ao redor deles, e não por uma abertura esquelética tão expressiva quanto a observada em muitas crianças.
Em linguagem simples, é como tentar alargar uma estrutura que já está menos maleável. Ainda dá para obter ganho de largura em muitos adolescentes, mas o planejamento precisa ser mais cuidadoso para evitar excesso de inclinação dentária, sobrecarga periodontal e resultados menos estáveis quando a deficiência transversal é grande.
Por isso, quando o paciente já passou da fase mais favorável de crescimento, o ortodontista costuma avaliar com mais atenção o quanto da mordida cruzada posterior é realmente esquelético e o quanto pode ser resolvido com expansão dentoalveolar controlada. Nessa fase, exames de imagem e análise clínica detalhada ganham ainda mais importância.
Limites em adultos e quando pensar em cirurgia (SARME)
Nos adultos, a expansão ortopédica pura tem limitações mais importantes, sobretudo quando existe uma deficiência transversal significativa da maxila. Com a sutura palatina mais madura e maior resistência óssea, tentar “forçar” a expansão apenas com aparelho pode produzir mais inclinação dentária e menos ganho esquelético real do que o desejado.
É nesse contexto que entra a SARME, sigla para expansão rápida da maxila assistida cirurgicamente. Em termos simples, trata-se de uma cirurgia feita para liberar as resistências ósseas da maxila; depois disso, um disjuntor é ativado para promover uma expansão mais previsível. Em vez de tentar abrir uma estrutura já rígida apenas com força ortodôntica, a cirurgia cria condições para que o expansor trabalhe com mais segurança e controle.
A SARME costuma ser considerada em adultos com maxila muito estreita, mordida cruzada posterior mais severa ou situações em que métodos convencionais tenderiam a gerar efeitos colaterais indesejados. A literatura descreve a técnica como uma opção confiável para tratar deficiência transversal maxilar em adultos quando a expansão somente com aparelho não seria suficiente ou previsível.
Importância do planejamento individualizado
Nem todo adolescente precisa de cirurgia, e nem todo adulto com mordida cruzada posterior será tratado da mesma forma. A escolha entre um expansor convencional, dispositivos com ancoragem esquelética ou SARME depende do grau de estreitamento da maxila, da idade biológica, do padrão ósseo e dos exames complementares, como radiografias e tomografia.
Esse é um ponto que merece reforço: o artigo ajuda a entender as diferenças entre os aparelhos, mas não substitui uma avaliação ortodôntica individualizada. Na prática, a melhor decisão nasce da combinação entre diagnóstico preciso, experiência clínica e expectativa realista sobre o que cada técnica pode entregar com segurança.
Perguntas frequentes sobre expansores para mordida cruzada posterior (FAQ)
O expansor dói? Quanto tempo dura o desconforto?
O expansor normalmente não causa dor forte, mas é comum provocar sensação de pressão nos dentes, no céu da boca e até na região do nariz nos primeiros dias. Esse desconforto costuma ser mais perceptível no início das ativações e tende a diminuir conforme o paciente se adapta ao aparelho.
Quanto tempo meu filho vai usar o expansor?
O tempo total varia conforme o tipo de aparelho, a idade e a quantidade de expansão necessária. Em muitos casos, existe uma fase de ativação mais curta e, depois, uma fase de contenção de alguns meses, porque o aparelho precisa permanecer na boca para ajudar a estabilizar o resultado.
É melhor disjuntor (Haas/Hyrax) ou quadrihélice/placa removível?
Não existe um único aparelho que seja o melhor para todos os casos. O disjuntor costuma ser muito útil quando se busca um efeito mais ortopédico, enquanto o quadrihélice e as placas removíveis podem funcionar muito bem em situações específicas, desde que haja boa indicação e, no caso das placas, boa colaboração.
Depois que tirar o expansor, a mordida pode voltar a entortar?
Pode haver pequena recidiva em alguns casos, mas isso não significa que o tratamento fracassou. Quando a expansão é bem planejada e a fase de contenção é respeitada, a estabilidade costuma ser boa, e a maior parte dos casos permanece corrigida no longo prazo.
Ainda dá para usar expansor em adolescente?
Sim, em muitos adolescentes ainda é possível realizar expansão, mas geralmente com menor potencial esquelético do que na infância. Por isso, o planejamento precisa ser mais cuidadoso para avaliar até onde o ganho de largura será realmente previsível e seguro.
Em adultos, é sempre preciso fazer cirurgia para expandir a maxila?
Não necessariamente. Alguns adultos conseguem certo grau de expansão dentoalveolar com aparelho, mas, quando a maxila é muito estreita e a deficiência transversal é importante, a abordagem cirúrgica pode ser a opção mais previsível e estável.
Como escolher o melhor expansor para cada caso
A correção da mordida cruzada posterior com expansores é um tratamento bastante estudado e, de modo geral, apresenta boa previsibilidade e boa estabilidade quando existe diagnóstico correto, escolha adequada do aparelho e uma fase de contenção bem conduzida. Em termos simples, quando a maxila está estreita, ampliar o arco superior costuma ser o caminho mais lógico para devolver um encaixe mais equilibrado à mordida.
De maneira geral, quanto mais cedo o problema é identificado, maior tende a ser o potencial de expansão esquelética e mais simples costuma ser a abordagem. Ainda assim, isso não significa que adolescentes e adultos estejam sem alternativas. O que muda é o tipo de resposta esperado, o limite biológico da expansão e, em alguns casos, a necessidade de recorrer a técnicas mais específicas, como a expansão assistida cirurgicamente.
Por isso, o tipo de expansor, o tempo de ativação e o período de contenção nunca devem ser definidos de forma genérica. Cada caso precisa ser analisado individualmente, com base no padrão da mordida, na idade, na fase de crescimento e nos exames complementares.
Se você recebeu indicação de expansor para tratar mordida cruzada posterior e quer entender qual aparelho faz mais sentido para o seu caso ou para o caso do seu filho, agende uma avaliação comigo. Assim, eu posso analisar com cuidado a mordida, explicar as diferenças entre os aparelhos e indicar a abordagem mais adequada para buscar um tratamento seguro, previsível e estável.
Agendar comigo pelo WhatsApp, clicando AQUI.
Referências científicas
Pinheiro FHSL, Garib DG, Janson G, Bombonatti R, Freitas MR. Longitudinal stability of rapid and slow maxillary expansion. Dental Press Journal of Orthodontics. 2014;19(6):70-77. O estudo concluiu que a expansão rápida e a expansão lenta da maxila apresentaram estabilidade semelhante em longo prazo.
Bazargani F, Feldmann I, Bondemark L. Skeletal effects of posterior crossbite treatment with either quad helix or rapid maxillary expansion: a randomized controlled trial with 1-year follow-up. The Angle Orthodontist. 2024. Ensaio clínico randomizado com crianças de média de 9,5 anos, mostrando efeitos esqueléticos mensuráveis e comparação entre quadrihélice e expansão rápida.
Lagravère MO, Heo G, Major PW, Flores-Mir C. Retention period after treatment of posterior crossbite with maxillary expansion: a systematic review. Progress in Orthodontics. Revisão sistemática mostrando que o período de contenção após expansão variou de 4 semanas a 16 meses, com uso frequente de contenção por cerca de 6 meses em vários protocolos.
Petrén S, Bjerklin K, Bondemark L. Stability of unilateral posterior crossbite correction in the mixed dentition: a randomized clinical trial with a 3-year follow-up. American Journal of Orthodontics and Dentofacial Orthopedics. 2011. O trabalho mostrou que, quando a mordida cruzada posterior é corrigida com sucesso, quadrihélice e placa removível apresentam estabilidade semelhante no acompanhamento.
Bartzela T, Jonas I. Long-term Stability of Unilateral Posterior Crossbite Correction. The Angle Orthodontist. 2007. O estudo relatou que aproximadamente 79% a 80% dos casos tratados permaneceram estáveis no longo prazo.
Ugolini A, Doldo T, Ghislanzoni LT, et al. Complete Maxillary Crossbite Correction with a Rapid Palatal Expansion in Mixed Dentition Followed by a Corrective Orthodontic Treatment. Relato de caso com expansor tipo Haas modificado, mostrando estabilidade clínica após 2 anos e 9 meses de acompanhamento.
Pereira MD, Koga AF, Prado GP, Ferreira LM. Surgically-assisted rapid maxillary expansion (SARME): indications, planning and treatment of severe maxillary deficiency in an adult patient. Dental Press Journal of Orthodontics. Revisão e caso clínico que discutem indicações, planejamento e limites da expansão em pacientes adultos, além do papel da SARME em deficiências transversais mais severas.