Na mordida aberta anterior, os dentes da frente não se encostam mesmo quando a pessoa fecha a boca e os dentes posteriores estão em contato. Em alguns casos, a alteração é discreta. Em outros, o espaço entre os incisivos interfere na maneira de morder alimentos, pronunciar determinados sons ou sorrir com segurança.

Essa condição pode surgir pela combinação de diferentes fatores. Hábitos de sucção prolongados, como usar chupeta ou chupar o dedo, podem influenciar o desenvolvimento da mordida durante a infância. A posição da língua, a respiração predominantemente pela boca e o próprio padrão de crescimento da face também precisam ser considerados. Por isso, nem sempre é correto atribuir o problema a uma única causa.

A idade também muda bastante o planejamento. Em uma criança que ainda está crescendo, pode ser necessário controlar um hábito e acompanhar o desenvolvimento da face. Em adolescentes e adultos, o tratamento pode envolver aparelho ortodôntico, alinhadores ou outros recursos. Nos casos esqueléticos mais acentuados, a cirurgia ortognática pode fazer parte da avaliação.

Neste artigo, você vai entender as principais causas da mordida aberta anterior, sua relação com fala e respiração e como o tratamento pode variar em cada fase da vida.

Como reconhecer uma mordida aberta anterior?

A mordida aberta anterior acontece quando os dentes superiores e inferiores da região da frente não se encontram, mesmo quando a pessoa fecha a boca e os dentes posteriores estão em contato. Em vez da sobreposição esperada entre os incisivos, permanece um espaço vertical entre eles.

Essa abertura pode ser pequena e percebida apenas durante uma avaliação odontológica. Em outros casos, é visível ao sorrir, falar ou tentar morder um alimento com os dentes da frente. Algumas pessoas também percebem que a língua ocupa esse espaço quando estão em repouso, engolindo ou pronunciando determinados sons.

O sinal visual, porém, não revela sozinho a origem nem a gravidade do problema. Duas pessoas podem apresentar aberturas parecidas, mas ter características bastante diferentes. Em uma delas, a alteração pode estar concentrada na posição dos dentes. Em outra, pode haver participação do padrão de crescimento dos ossos da face, dos hábitos de sucção, da postura da língua ou de funções como respiração e deglutição.

Também é importante observar onde os dentes deixam de se encontrar. Na mordida aberta anterior, a falta de contato está na região dos incisivos. Já na mordida aberta posterior, o espaço aparece nas regiões laterais, enquanto os dentes da frente podem manter contato. Essa diferença interfere no diagnóstico e no planejamento do tratamento.

Por isso, reconhecer o espaço entre os dentes é apenas o primeiro passo. A avaliação ortodôntica precisa analisar o encaixe completo da mordida, o crescimento facial, as funções orais e o histórico de hábitos antes de indicar qualquer aparelho ou intervenção.

Para entender como esse problema se diferencia de outras alterações verticais, leia também: Mordida aberta e mordida profunda: quando o problema é vertical.

Quais são as principais causas da mordida aberta anterior?

A mordida aberta anterior costuma ser multifatorial. Isso significa que ela pode surgir pela combinação entre hábitos orais, posição dos dentes, postura da língua, padrão de crescimento da face e funções como respiração e deglutição.

Nem sempre é possível apontar uma única causa. Em algumas crianças, um hábito de sucção tem participação evidente. Em outras, o espaço entre os dentes permanece mesmo após o abandono do hábito porque existem fatores funcionais ou esqueléticos associados.

Por isso, observar que a criança usa chupeta, chupa o dedo ou mantém a língua entre os dentes não substitui o diagnóstico. É necessário avaliar há quanto tempo o comportamento acontece, com que frequência, em qual fase da dentição e como a face está se desenvolvendo.

Chupeta e sucção de dedo

Chupar o dedo e usar chupeta são hábitos de sucção não nutritiva. Eles fazem parte do desenvolvimento de muitas crianças e podem ter função de conforto, especialmente nos primeiros anos de vida. O problema ortodôntico está mais relacionado à permanência e à intensidade do hábito do que a um episódio isolado de uso.

Durante a sucção, o dedo ou a chupeta ocupa o espaço entre os dentes anteriores e pode alterar o equilíbrio das forças exercidas pela língua, pelos lábios e pelas bochechas. Quando isso acontece com frequência e por um período prolongado, os incisivos podem deixar de alcançar o contato esperado.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 encontrou associação entre hábitos de sucção não nutritiva e maior risco de mordida aberta anterior em crianças. Os resultados também indicaram risco mais elevado entre aquelas que mantinham o hábito por mais tempo ou usavam chupeta diariamente.

A American Academy of Pediatric Dentistry também reconhece que hábitos prolongados de chupeta e sucção digital estão associados à mordida aberta anterior e à mordida cruzada posterior. A orientação não deve ser baseada apenas na idade da criança: duração, frequência e intensidade também importam.

Em alguns casos, a abertura pode diminuir depois que o hábito é interrompido, principalmente durante o crescimento. Ainda assim, não é possível garantir a correção espontânea. Uma revisão sistemática encontrou possibilidade de melhora mesmo após os quatro anos, mas classificou a certeza da evidência como muito baixa e não conseguiu determinar uma idade exata a partir da qual a autocorreção deixa de acontecer.

Isso ajuda a evitar dois extremos: acreditar que toda criança que usa chupeta desenvolverá mordida aberta ou esperar indefinidamente que o problema desapareça sozinho.

Mamadeira noturna e padrão prolongado de sucção

A mamadeira noturna exige uma explicação mais cuidadosa. Ela não deve ser apresentada como causa direta e isolada de mordida aberta anterior, nem colocada automaticamente no mesmo nível de evidência da sucção de dedo e da chupeta.

O que precisa ser avaliado é o contexto: por quanto tempo a criança mantém a mamadeira, com que frequência ocorre a sucção, se ela continua depois da fase esperada de transição alimentar e se existem outros hábitos simultâneos.

Alguns estudos observacionais identificam associações entre alimentação por mamadeira prolongada e determinadas alterações oclusais. No entanto, os resultados não permitem concluir que a mamadeira noturna, sozinha, provoque a mordida aberta. Em um estudo com crianças, o uso de mamadeira por mais de 18 meses apresentou associação com outras características da oclusão, enquanto a mordida aberta apareceu de maneira mais clara relacionada à sucção digital prolongada.

Também é importante separar duas questões que às vezes aparecem misturadas. O hábito de sucção pode ser analisado do ponto de vista ortodôntico, enquanto dormir com mamadeira contendo leite ou líquidos açucarados envolve ainda uma preocupação específica com o risco de cárie.

Assim, a recomendação não deve ser simplesmente “retirar a mamadeira para fechar a mordida”. O ideal é avaliar a idade, a rotina alimentar, a dentição, a presença de outros hábitos e o desenvolvimento da criança.

Sucção de lábio e interposição lingual

A sucção ou o aprisionamento do lábio entre os dentes também pode participar do desequilíbrio muscular ao redor das arcadas. Dependendo de como o hábito acontece, ele pode influenciar a posição dos incisivos e dificultar o contato entre os dentes da frente.

Já a interposição lingual ocorre quando a língua permanece ou avança entre os dentes anteriores em repouso, durante a deglutição ou na fala. Essa posição pode exercer pressão sobre os dentes e contribuir para a manutenção da abertura.

Mas a relação não acontece sempre na mesma direção. Em algumas pessoas, a postura lingual pode participar da origem da mordida aberta. Em outras, a língua passa a ocupar um espaço que já existia e se adapta à alteração. Também pode funcionar como fator de manutenção ou de recidiva depois do tratamento.

Por isso, ver a língua entre os dentes não é suficiente para concluir que ela causou o problema. O ortodontista precisa avaliar a postura em repouso, a deglutição, a fala, o selamento dos lábios e a forma como essas funções se relacionam com a mordida.

Quando existe uma alteração funcional, a avaliação fonoaudiológica pode fazer parte do cuidado. A terapia miofuncional, porém, não substitui automaticamente o tratamento ortodôntico nem é indicada da mesma forma para todas as pessoas. Uma revisão sistemática sobre tratamento precoce apontou que a evidência disponível para normalização da respiração, da deglutição e da postura da língua ainda apresenta limitações.

Crescimento facial e componente esquelético

Nem toda mordida aberta anterior é causada por hábitos. Algumas pessoas apresentam um padrão de crescimento mais vertical, no qual os ossos da face e a mandíbula se desenvolvem de forma a favorecer a falta de contato entre os dentes anteriores.

Nesses casos, podem existir características como aumento da altura da parte inferior da face, rotação da mandíbula e maior inclinação do plano mandibular. A posição dos dentes pode fazer parte do problema, mas não explica sozinha toda a abertura.

Hábitos prolongados podem agravar uma tendência já existente, mas não devem receber toda a responsabilidade quando existe participação esquelética. Da mesma forma, interromper a chupeta, a sucção de dedo ou a interposição do lábio pode ser importante, mas não garante que a mordida se corrija quando o padrão de crescimento também está envolvido.

Essa distinção influencia diretamente o planejamento. Uma alteração predominantemente dentária e relacionada a um hábito pode responder de forma diferente de uma mordida aberta com componente esquelético acentuado.

Para se aprofundar nos efeitos dos hábitos durante a infância, leia também: Chupeta, dedo e mamadeira: entenda os impactos desses hábitos.

Como a mordida aberta pode afetar a fala, a alimentação e a segurança ao sorrir?

A ausência de contato entre os dentes da frente pode ter efeitos diferentes de uma pessoa para outra. Em alguns casos, a principal preocupação é estética. Em outros, aparecem adaptações na fala e na maneira de cortar os alimentos.

O tamanho da abertura, a posição da língua, o padrão facial e a capacidade individual de adaptação ajudam a determinar o impacto. Por isso, ter mordida aberta anterior não significa necessariamente apresentar todas essas dificuldades.

Alterações na fala

A produção da fala depende da coordenação entre língua, dentes, lábios e passagem do ar. Quando existe um espaço entre os incisivos, a língua pode assumir uma posição diferente e o ar pode escapar pela região anterior durante a pronúncia de determinados sons.

Uma revisão de 2025, dedicada a crianças nas fases de dentição decídua e mista, encontrou associação frequente entre mordida aberta anterior e alterações dos sons da fala. Os estudos analisados apontaram principalmente mudanças relacionadas ao posicionamento da língua e ao controle do fluxo de ar, embora a intensidade e o tipo de alteração tenham variado bastante.

Sons que exigem aproximação da língua com os dentes, como “s”, “z”, “t” e “d”, podem sofrer distorções em algumas pessoas. Isso pode aparecer como escape de ar, projeção da língua ou dificuldade para produzir o som com clareza. Ainda assim, não é possível olhar para a mordida e prever exatamente como alguém falará.

Um estudo com pessoas que apresentavam mordida aberta esquelética identificou mais alterações perceptivas e acústicas da fala do que no grupo sem essa deformidade. Como a pesquisa analisou um grupo específico, seus resultados não devem ser generalizados para todos os casos de mordida aberta, especialmente os mais leves ou predominantemente dentários.

Quando existe alteração na articulação dos sons, a avaliação fonoaudiológica pode complementar o diagnóstico ortodôntico. O objetivo é observar não apenas a fala, mas também a posição da língua em repouso e seu funcionamento durante a deglutição.

O aparelho movimenta os dentes, mas não deve ser apresentado como tratamento automático para qualquer alteração de fala. Da mesma forma, a fonoterapia não substitui a correção ortodôntica quando a posição dentária ou o componente esquelético também precisam ser tratados.

Dificuldade para morder e cortar alimentos

Os incisivos são os dentes usados principalmente para iniciar o corte dos alimentos. Quando eles não se encostam, ações aparentemente simples podem exigir adaptações.

A pessoa pode perceber dificuldade para:

  • morder uma maçã ou outra fruta;
  • cortar um sanduíche;
  • separar um pedaço de pizza;
  • morder folhas, carnes ou alimentos mais firmes;
  • usar os dentes da frente para segurar ou cortar o alimento.

Em vez de utilizar os incisivos, algumas pessoas deslocam o alimento para os dentes laterais. Outras usam a língua ou os lábios para ajudar. Essas adaptações podem se tornar tão habituais que nem sempre são percebidas como uma dificuldade.

A revisão sistemática de 2025 sobre qualidade de vida relacionada à mordida aberta anterior encontrou repercussões funcionais ligadas principalmente à alimentação e à fala. Os estudos incluídos apresentaram limitações metodológicas, mas, em conjunto, mostram que o problema pode ultrapassar a aparência dos dentes.

Isso não significa que toda mordida aberta comprometa a mastigação por completo. Os dentes posteriores podem continuar triturando os alimentos, e a intensidade da limitação depende da extensão da abertura, da quantidade de contatos entre os dentes e da forma como cada pessoa se adapta.

O artigo do próprio blog sobre problemas verticais da mordida também explica que a ausência de contato entre os incisivos pode dificultar o corte dos alimentos, sem permitir concluir, apenas por esse sinal, qual é a origem ou a gravidade do caso.

Aparência do sorriso, constrangimento e qualidade de vida

O espaço entre os dentes anteriores pode ficar visível ao sorrir, falar ou aparecer em fotografias. Algumas pessoas também percebem a língua entre os dentes ou apresentam dificuldade para manter os lábios fechados confortavelmente.

Essas características não são necessariamente vividas como um problema. Há quem não se incomode com a aparência da mordida aberta. Para outras pessoas, porém, o receio de mostrar os dentes pode reduzir a espontaneidade ao sorrir ou falar em público.

A revisão sistemática publicada em 2025 encontrou impacto da mordida aberta anterior em aspectos psicológicos e sociais da qualidade de vida relacionada à saúde bucal, além das limitações funcionais. O ato de sorrir foi uma das situações mencionadas nos estudos analisados. Os autores, contudo, ressaltaram que a qualidade metodológica da literatura ainda é limitada.

Por isso, não é adequado afirmar que a mordida aberta provoca vergonha ou baixa autoestima em todas as pessoas. A repercussão depende da percepção individual, das experiências sociais e da importância que cada pessoa atribui ao próprio sorriso.

Na vida adulta, o incômodo pode estar relacionado tanto à aparência quanto às adaptações acumuladas ao longo dos anos. Dificuldade para morder determinados alimentos, preocupação com a pronúncia e desconforto ao sorrir podem aparecer juntos ou separadamente.

Durante a avaliação, essas queixas precisam ser ouvidas de forma individual. A indicação de tratamento não depende apenas de medidas feitas nos dentes: também considera a função, o impacto percebido e os objetivos da pessoa.

Como saber se a mordida aberta é dentária, funcional ou esquelética?

A aparência do espaço entre os dentes da frente não mostra, sozinha, qual é a origem da mordida aberta. Casos visualmente parecidos podem ter causas diferentes e, por isso, exigir planejamentos distintos.

De forma simplificada, o ortodontista procura entender quanto da alteração está concentrado na posição dos dentes, quanto envolve hábitos e funções orais e quanto está relacionado ao padrão de crescimento dos ossos da face. Essas categorias não são fechadas: uma mesma pessoa pode apresentar componentes dentários, funcionais e esqueléticos ao mesmo tempo.

A literatura descreve a mordida aberta anterior como uma alteração de origem multifatorial. Hábitos de sucção, postura da língua, obstrução das vias aéreas, desequilíbrios musculares e características de crescimento podem se combinar em proporções diferentes. Por isso, um diagnóstico preciso é indispensável antes da escolha do tratamento.

O que caracteriza uma mordida aberta predominantemente dentária?

Nos casos predominantemente dentários, a abertura está mais relacionada à posição e à inclinação dos dentes e ao desenvolvimento da região alveolar, que é a parte dos ossos onde os dentes estão inseridos.

Esse padrão pode aparecer, por exemplo, depois de um hábito prolongado de chupeta ou sucção de dedo. Os incisivos podem se inclinar ou deixar de irromper até o ponto de contato esperado, enquanto as proporções gerais da face não apresentam uma discrepância esquelética acentuada.

Isso não significa que todo caso causado por hábito seja simples ou se resolva sozinho. A idade, o tempo de permanência do hábito, a extensão da abertura e a presença de outros fatores continuam influenciando o prognóstico.

Quando existe um componente funcional?

O componente funcional envolve a maneira como língua, lábios, bochechas, respiração e deglutição se comportam no dia a dia.

Durante a avaliação, podem ser observados:

  • língua posicionada entre os dentes em repouso;
  • projeção da língua ao engolir;
  • dificuldade para manter os lábios fechados confortavelmente;
  • sucção ou aprisionamento do lábio;
  • respiração predominantemente pela boca;
  • alterações de fala ou deglutição.

Esses sinais precisam ser interpretados com cuidado. Uma revisão recente sobre o comportamento da língua em pessoas com mordida aberta concluiu que ainda não está totalmente definido se a postura lingual funciona como causa primária, fator associado ou adaptação a uma abertura já existente.

Por isso, o diagnóstico não deve se limitar à frase “a língua empurra os dentes”. É preciso observar a postura em repouso, o movimento durante a deglutição, a fala e a relação dessas funções com a forma das arcadas.

O que indica participação esquelética?

Na mordida aberta esquelética, a falta de contato entre os dentes anteriores está relacionada de maneira mais importante ao padrão de crescimento da maxila, da mandíbula e da face.

Algumas características que podem aparecer são:

  • aumento da altura da parte inferior da face;
  • tendência de rotação da mandíbula para baixo e para trás;
  • maior inclinação do plano mandibular;
  • aumento da região posterior dos processos alveolares;
  • dificuldade de selamento dos lábios;
  • abertura que não se explica apenas pela posição dos incisivos.

Esses achados não podem ser confirmados por fotografias ou pela observação do sorriso isoladamente. A avaliação clínica e os exames complementares ajudam a diferenciar uma alteração dentoalveolar de um padrão esquelético mais acentuado. Revisões sobre tratamento em dentição mista descrevem diferenças morfológicas típicas da mordida aberta esquelética, mas reforçam que a seleção da abordagem depende do diagnóstico individual.

O que o ortodontista avalia antes de indicar o tratamento?

A consulta costuma reunir informações sobre a mordida, a face, o crescimento e as funções orais. Entre os pontos observados estão:

  • localização e tamanho da abertura;
  • contato entre os dentes posteriores;
  • posição e inclinação dos incisivos;
  • formato das arcadas;
  • proporções da face;
  • fase da dentição e potencial de crescimento;
  • histórico de chupeta, dedo, mamadeira ou outros hábitos;
  • postura da língua e dos lábios;
  • padrão respiratório;
  • presença de alterações de fala ou deglutição;
  • tratamentos anteriores e possibilidade de recidiva.

Fotografias, modelos ou escaneamento digital, radiografias e análise cefalométrica podem fazer parte do diagnóstico, conforme a necessidade do caso. O objetivo dos exames não é apenas medir o espaço entre os dentes, mas entender como dentes, ossos, músculos e funções participam da alteração.

Quando fonoaudiólogo e otorrinolaringologista participam?

A avaliação multidisciplinar é indicada quando os sinais encontrados ultrapassam a posição dos dentes.

O fonoaudiólogo pode participar quando há alterações de fala, deglutição, mastigação, selamento labial ou postura da língua. Sua atuação ajuda a avaliar e trabalhar funções que não são corrigidas apenas com a movimentação ortodôntica.

O otorrinolaringologista pode ser necessário quando existem sinais persistentes de obstrução nasal, respiração bucal, ronco, aumento de adenoides ou amígdalas e outros sintomas respiratórios.

Nem toda pessoa com mordida aberta precisará desses acompanhamentos. O encaminhamento depende do diagnóstico e das queixas apresentadas. A participação de diferentes profissionais busca tratar os fatores relevantes de cada caso, em vez de usar o mesmo protocolo para todas as pessoas.

Essa diferenciação também ajuda a entender por que não existe um único “aparelho para mordida aberta”. O recurso adequado depende da idade, do crescimento, da origem da abertura e das funções que precisam ser acompanhadas.

Como é o tratamento da mordida aberta em crianças, adolescentes e adultos?

O tratamento da mordida aberta anterior não é definido apenas pelo tamanho do espaço entre os dentes. A idade, a fase da dentição, o potencial de crescimento, a origem da alteração e a presença de hábitos ou mudanças funcionais influenciam a escolha da abordagem.

Por isso, duas pessoas com mordidas aparentemente semelhantes podem receber recomendações diferentes. Enquanto uma criança pode precisar inicialmente de orientação para interromper um hábito e acompanhamento do crescimento, uma pessoa adulta pode necessitar de movimentação ortodôntica mais complexa ou da associação com outros recursos.

Também não existe um aparelho único para fechar toda mordida aberta. Grade palatina, aparelhos ortopédicos, aparelho fixo, alinhadores, ancoragem esquelética e cirurgia ortognática têm indicações específicas e não são alternativas equivalentes.

Tratamento da mordida aberta na infância

Na infância, o primeiro passo é entender se a abertura está relacionada a um hábito ainda presente, como sucção de dedo ou uso prolongado de chupeta. Quando o hábito participa do problema, sua interrupção pode ser uma parte importante do tratamento.

A abordagem precisa ser cuidadosa. Chupar o dedo ou procurar a chupeta pode ter uma função de conforto emocional, e transformar o processo em punição ou constrangimento tende a dificultar a colaboração. A orientação deve considerar a idade, a maturidade e a rotina familiar.

Em algumas crianças, a mordida apresenta melhora depois do controle do hábito, principalmente quando não existe um componente esquelético importante e ainda há crescimento. Essa melhora, porém, não é garantida. A decisão entre observar e intervir depende da dentição, da extensão da abertura e dos demais fatores encontrados no diagnóstico.

Quando é necessário um recurso ortodôntico ou ortopédico, as possibilidades podem incluir:

  • grade palatina fixa ou removível;
  • esporões linguais;
  • aparelhos funcionais;
  • aparelhos ortopédicos para controle vertical;
  • recursos associados à expansão da arcada;
  • acompanhamento fonoaudiológico, quando existe alteração funcional;
  • investigação otorrinolaringológica, quando há sinais respiratórios.

A grade palatina funciona como uma barreira que dificulta a permanência do dedo, da chupeta ou da língua entre os dentes. Ela não “ensina a língua” sozinha, nem é indicada para toda criança com mordida aberta. Seu uso faz mais sentido quando o diagnóstico identifica um hábito ou uma postura anterior que precisa ser interrompida.

Uma revisão sistemática comparando grade palatina fixa, grade removível e esporões encontrou melhora da sobremordida com essas intervenções precoces. Como os estudos incluídos eram poucos e avaliaram principalmente mudanças de curto prazo, ainda não é possível afirmar que um desses dispositivos seja superior em todas as situações. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)

Pesquisas mais recentes também indicam que a grade fixa pode produzir alterações dentoalveolares, como mudanças na inclinação dos incisivos, sem necessariamente modificar o padrão esquelético. Isso reforça que o aparelho deve ser escolhido de acordo com a origem da mordida aberta, e não apenas porque existe um espaço entre os dentes. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)

Os aparelhos ortopédicos podem ser considerados quando ainda existe potencial de crescimento e o planejamento busca influenciar o desenvolvimento dentofacial. A evidência disponível mostra resultados positivos para diferentes intervenções em crianças, mas ainda apresenta variação entre protocolos e limitações quanto à estabilidade em longo prazo. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)

Assim, tratar cedo não significa colocar aparelho em toda criança. Significa diagnosticar cedo e escolher o melhor momento para observar, controlar hábitos ou intervir.

Para entender em quais situações uma avaliação ortodôntica infantil pode ser indicada, leia também: Aparelho ortodôntico infantil: como saber se seu filho precisa.

Tratamento durante a adolescência

Na adolescência, boa parte dos dentes permanentes já está presente, mas algum crescimento facial ainda pode acontecer. O quanto esse crescimento pode ser aproveitado depende da idade biológica, do estágio de desenvolvimento e das características individuais.

O tratamento pode envolver aparelho fixo ou alinhadores, associados ou não a elásticos e outros recursos. Em casos selecionados, aparelhos para controle vertical ou ancoragem esquelética também podem fazer parte do planejamento.

A escolha entre aparelho fixo e alinhadores não deve ser feita apenas pela preferência estética. É necessário avaliar quais movimentos serão necessários, a gravidade da abertura, a colaboração com o uso de elásticos ou placas e a previsibilidade para aquele padrão de mordida.

Também é nessa fase que hábitos e funções precisam ser reavaliados. Mesmo que a chupeta ou a sucção de dedo já tenham sido abandonadas, a língua pode permanecer entre os dentes, o selamento dos lábios pode estar alterado ou a respiração bucal pode continuar presente.

O aparelho pode fechar o espaço, mas a estabilidade depende de reconhecer os fatores que ainda atuam sobre os dentes. Quando existe alteração de fala, deglutição ou postura lingual, a avaliação fonoaudiológica pode ser indicada. Quando há sinais de obstrução respiratória, a investigação médica continua sendo necessária.

Para saber por que a idade ideal varia conforme o problema e a fase de desenvolvimento, leia: Idade ideal para colocar aparelho: quando avaliar e tratar.

Tratamento da mordida aberta em adultos

Na vida adulta, o crescimento facial já foi concluído ou está próximo do fim. Isso muda as possibilidades de correção esquelética, mas não significa que toda mordida aberta adulta precise de cirurgia.

Nos casos predominantemente dentários ou dentoalveolares, o planejamento pode utilizar aparelho fixo ou alinhadores para modificar a posição dos incisivos, controlar os dentes posteriores e criar o contato anterior.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 encontrou melhora da mordida aberta em adultos tratados com alinhadores. Os autores, porém, destacaram heterogeneidade entre os estudos e limitações na qualidade das evidências, o que impede tratar essa opção como previsível para qualquer caso.

O fechamento pode acontecer por mecanismos diferentes, como extrusão dos incisivos, intrusão dos molares ou combinação de movimentos. Essas estratégias não produzem os mesmos efeitos sobre a face e não são adequadas para todas as pessoas.

Em casos selecionados, mini-implantes ou miniplacas podem ser utilizados como ancoragem esquelética. Esses dispositivos oferecem um ponto de apoio para realizar movimentos que seriam mais difíceis dependendo apenas dos dentes, como a intrusão dos molares.

Uma revisão sistemática sobre ancoragem esquelética encontrou resultados favoráveis na correção da mordida aberta em pessoas com dentição permanente, mas apontou que a evidência de longo prazo ainda é limitada e que parte da correção pode sofrer alguma recidiva.

Para casos complexos, o planejamento digital pode ajudar a visualizar movimentos e acompanhar etapas, mas não elimina as limitações biológicas nem substitui o diagnóstico clínico. Leia também: Invisalign para casos complexos: planejamento e previsibilidade.

Quando a cirurgia ortognática pode ser considerada?

A cirurgia ortognática pode fazer parte do tratamento quando existe uma discrepância esquelética importante e a movimentação dos dentes, sozinha, não permite alcançar os objetivos funcionais e faciais definidos no planejamento.

Nesses casos, o tratamento costuma associar ortodontia e cirurgia para reposicionar a maxila, a mandíbula ou ambas. A indicação considera aspectos como:

  • intensidade do componente esquelético;
  • proporções e equilíbrio da face;
  • quantidade de compensação presente nos dentes;
  • função mastigatória;
  • possibilidade de obter uma oclusão adequada apenas com ortodontia;
  • queixas e objetivos da pessoa;
  • condições gerais de saúde.

A cirurgia não é indicada simplesmente porque a pessoa é adulta. Também não deve ser tratada como a única opção para toda mordida aberta esquelética. Estratégias não cirúrgicas, incluindo ancoragem esquelética, podem ser avaliadas em alguns casos, embora nem sempre produzam o mesmo tipo de mudança facial de uma cirurgia.

Uma revisão de 2024 recomenda que a decisão entre tratamento ortodôntico, recursos de ancoragem e abordagem cirúrgica considere a classificação e a gravidade da mordida aberta, além dos objetivos faciais e funcionais.

Uma revisão sistemática publicada em 2025 encontrou resultados favoráveis em tratamentos ortodôntico-cirúrgicos para mordida aberta esquelética em adolescentes e adultos, mas também identificou diferenças entre técnicas, períodos de acompanhamento e critérios usados para medir estabilidade.

A escolha só pode ser feita depois de documentação completa e de uma conversa clara sobre benefícios, limitações, riscos e alternativas.

Controle dos hábitos, contenção e estabilidade

Fechar a mordida não encerra necessariamente o tratamento. A mordida aberta é conhecida pelo risco de reabertura, especialmente quando os fatores que participaram de sua origem ou manutenção continuam presentes.

Entre os pontos que podem afetar a estabilidade estão:

  • postura da língua em repouso;
  • padrão de deglutição;
  • permanência de hábitos de sucção;
  • respiração bucal sem investigação;
  • padrão de crescimento vertical;
  • tipo de movimentação realizada;
  • colaboração com a contenção;
  • gravidade inicial da alteração.

A contenção busca preservar a nova posição dos dentes enquanto os tecidos se reorganizam. O tipo e o tempo de uso variam conforme o caso, por isso não existe um protocolo único que possa ser informado antes do planejamento.

Revisões sobre estabilidade mostram que tanto tratamentos cirúrgicos quanto não cirúrgicos podem apresentar algum grau de recidiva. A qualidade e a heterogeneidade dos estudos ainda dificultam uma previsão exata para cada pessoa.

Por isso, estabilidade não depende apenas de “usar a contenção direito”. Ela começa com um diagnóstico que identifica a origem da mordida aberta e continua com o acompanhamento dos hábitos, das funções orais e do padrão de crescimento ou adaptação facial.

Quando procurar avaliação para mordida aberta anterior?

A mordida aberta anterior pode ser percebida ainda na infância ou se tornar mais evidente durante a adolescência e a vida adulta. Nem sempre é necessário iniciar um tratamento imediatamente, mas identificar a alteração cedo ajuda a entender se ela está diminuindo, permanecendo estável ou se tornando mais acentuada.

Uma avaliação ortodôntica é recomendada quando a pessoa apresenta sinais como:

  • dentes da frente que não se encostam ao fechar a boca;
  • dificuldade para morder ou cortar alimentos com os incisivos;
  • língua frequentemente posicionada entre os dentes;
  • alteração ou escape de ar durante a pronúncia de alguns sons;
  • uso persistente de chupeta ou sucção de dedo;
  • hábito de sugar ou prender o lábio entre os dentes;
  • respiração pela boca durante boa parte do dia;
  • ronco, sono agitado ou dificuldade recorrente para respirar pelo nariz;
  • aumento perceptível do espaço entre os dentes;
  • incômodo com a aparência do sorriso.

Esses sinais não permitem determinar, por conta própria, se a mordida aberta é dentária, funcional ou esquelética. Eles também não indicam automaticamente a necessidade de aparelho, grade palatina ou cirurgia.

Na infância, a consulta pode mostrar que o melhor caminho é orientar a interrupção de um hábito e acompanhar o crescimento. Em outros casos, uma intervenção ortodôntica ou ortopédica pode ser indicada. Quando existem sinais de alteração respiratória, fala, deglutição ou postura da língua, também pode ser necessário encaminhamento para otorrinolaringologista ou fonoaudiólogo.

Em adolescentes e adultos, a avaliação ajuda a verificar quanto da abertura está relacionado à posição dos dentes e quanto envolve o padrão facial. A partir disso, é possível discutir alternativas como aparelho fixo, alinhadores, recursos de ancoragem esquelética ou, nos casos em que existe discrepância óssea importante, tratamento ortodôntico associado à cirurgia ortognática.

O mais importante é não escolher o tratamento apenas pela aparência da abertura ou pela experiência de outra pessoa. A mesma alteração visual pode ter origens diferentes, e o planejamento precisa considerar a mordida completa, o crescimento facial, as funções orais e as necessidades individuais.

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Durante a consulta, vou analisar o encaixe da mordida, a posição dos dentes, o padrão facial, o histórico de hábitos e possíveis alterações de fala ou respiração. A partir desse diagnóstico, será possível entender a origem da mordida aberta anterior e conversar sobre quais opções de acompanhamento ou tratamento fazem sentido para o caso.

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Entender a causa é o primeiro passo para tratar a mordida aberta

A mordida aberta anterior pode envolver hábitos de sucção, postura da língua, respiração bucal, posição dos dentes e características do crescimento facial. Esses fatores podem aparecer isoladamente ou em conjunto, o que explica por que o tratamento não é igual para todas as pessoas.

Na infância, reconhecer o problema cedo permite acompanhar o desenvolvimento, orientar o controle de hábitos e avaliar o momento adequado para intervir. Na adolescência e na vida adulta, o planejamento considera a posição dos dentes, o componente esquelético, as funções orais e os impactos percebidos na alimentação, na fala e no sorriso.

A avaliação ortodôntica não serve apenas para confirmar que existe um espaço entre os dentes. Ela ajuda a identificar por que a abertura aconteceu, quais fatores ainda estão presentes e que tipo de acompanhamento ou tratamento pode oferecer resultados mais estáveis.

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Referências bibliográficas

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