Ao fechar a boca, é normal que os dentes superiores cubram uma parte dos inferiores. O problema começa quando essa sobreposição fica acentuada: os incisivos de baixo podem quase desaparecer atrás dos de cima e, em alguns casos, chegar a tocar a gengiva ou os tecidos do palato. Essa condição é chamada de mordida profunda, ou sobremordida aumentada.

Mas olhar apenas para quanto um dente cobre o outro não explica tudo. Duas pessoas podem apresentar uma aparência parecida e ter motivos diferentes para isso. A posição e a erupção dos incisivos, a relação dos dentes posteriores, o padrão de crescimento da face e características individuais podem participar do quadro.

As consequências também não são iguais para todo mundo. Algumas pessoas procuram tratamento principalmente pela estética do sorriso; outras apresentam contatos dentários desfavoráveis, desgaste ou trauma dos tecidos. E sintomas como dor na mandíbula, DTM ou bruxismo precisam ser avaliados separadamente, sem atribuir automaticamente sua causa à mordida profunda.

Entender por que a sobremordida está aumentada é justamente o que permite ao ortodontista decidir se ela precisa ser tratada e quais movimentos fazem sentido em cada caso.

Como saber se a sobreposição dos dentes é realmente uma mordida profunda?

Os dentes superiores cobrirem uma parte dos inferiores quando a boca se fecha faz parte da relação normal entre os incisivos. Na Ortodontia, essa sobreposição vertical é chamada de sobremordida ou overbite. O termo mordida profunda é usado quando esse recobrimento está aumentado.

Visualmente, um dos sinais mais fáceis de perceber é que os incisivos inferiores ficam pouco aparentes quando os dentes estão encaixados. Em casos mais acentuados, podem ficar quase completamente escondidos pelos superiores.

Mas existe uma diferença importante entre perceber uma sobreposição maior no espelho e entender por que ela acontece.

A quantidade de recobrimento é apenas uma parte do diagnóstico. O ortodontista também precisa observar a posição e a inclinação dos incisivos, a relação entre os dentes posteriores, as proporções da face e o padrão de crescimento. A sobremordida profunda é considerada uma alteração de origem multifatorial justamente porque diferentes combinações dentárias e esqueléticas podem produzir uma aparência semelhante.

Por isso, duas pessoas podem olhar para os próprios dentes e pensar “os de cima cobrem demais os de baixo”, mas chegar a planejamentos ortodônticos diferentes.

Também não é preciso interpretar toda sobremordida aumentada como um problema grave. A importância clínica depende do grau da alteração, dos contatos entre os dentes, da presença de trauma nos tecidos, das características faciais e das necessidades de cada pessoa.

Se você ainda está tentando entender a diferença entre excesso e falta de sobreposição dos dentes anteriores, vale começar pelo nosso conteúdo sobre mordida aberta e mordida profunda: quando o problema é vertical.

A partir daqui, a pergunta mais útil deixa de ser apenas “quanto os dentes de cima cobrem os de baixo?” e passa a ser “por que a minha mordida ficou assim?”. É essa diferença que ajuda a definir o que precisa, ou não, ser corrigido.

Por que a mordida profunda se desenvolve?

A mordida profunda raramente tem uma única explicação. Ela pode resultar de características do crescimento da face, da posição dos dentes anteriores, da altura dos dentes posteriores ou de uma combinação desses fatores.

É justamente por isso que duas pessoas com os dentes superiores cobrindo bastante os inferiores podem precisar de estratégias de tratamento diferentes.

Padrão de crescimento e proporções da face

Em algumas pessoas, a mordida profunda faz parte de um padrão de crescimento facial mais horizontal, com menor desenvolvimento vertical da parte inferior da face. Na Ortodontia, esse conjunto de características pode aparecer associado a padrões chamados de hipodivergentes ou braquifaciais.

Isso não significa que toda pessoa com esse formato facial terá mordida profunda, nem que toda mordida profunda seja causada pelo crescimento ósseo. O padrão facial é uma das peças do diagnóstico.

Quando existe um componente esquelético importante, o ortodontista precisa considerar não apenas a posição dos dentes, mas também as proporções entre maxila, mandíbula e altura facial. Essa análise influencia inclusive a escolha dos movimentos que serão usados para corrigir a sobremordida.

Posição e erupção dos incisivos

A origem também pode estar predominantemente nos dentes.

Os incisivos podem estar posicionados mais verticalmente do que o desejado, apresentando uma erupção aumentada em relação aos demais dentes. Em outros casos, sua inclinação também contribui para o aspecto de uma mordida mais fechada.

Quando há esse componente dentoalveolar, os incisivos superiores, os inferiores ou ambos podem participar do excesso de sobreposição.

É por isso que dizer apenas que “os dentes de cima cobrem os de baixo” ainda não explica o problema. O ortodontista precisa descobrir quais dentes estão contribuindo para esse recobrimento e de que maneira. A literatura descreve tanto a sobre-erupção dos incisivos quanto alterações nos dentes posteriores entre os mecanismos que podem participar da formação da mordida profunda.

O papel dos dentes posteriores

Os molares e pré-molares também influenciam a relação vertical dos dentes da frente.

Quando os dentes posteriores apresentam menor desenvolvimento vertical ou menor erupção relativa, a parte anterior pode acabar apresentando uma sobreposição maior. Em alguns casos, portanto, a mordida profunda não está relacionada somente a incisivos “baixos demais” ou “altos demais”: a altura posterior da mordida também participa do encaixe.

Essa diferença é importante porque interfere diretamente no planejamento. Dependendo do caso, corrigir a sobremordida pode envolver movimentar os dentes anteriores, os posteriores ou combinar diferentes movimentos.

Genética e características individuais

Características craniofaciais têm componente hereditário, portanto a genética pode contribuir para padrões de crescimento e relações dentárias associados à mordida profunda.

Mas isso não funciona como uma sentença do tipo “meus pais têm, então necessariamente eu terei”.

A forma final da mordida resulta da interação entre crescimento, desenvolvimento dentário, posição e erupção dos dentes e outras características individuais. Por isso, mesmo dentro de uma família, a intensidade e o mecanismo da sobremordida podem ser diferentes.

Também é por esse motivo que bruxismo não deve ser colocado automaticamente como a causa de uma mordida profunda. Uma pessoa pode apresentar as duas condições, mas a coexistência não demonstra que uma tenha provocado a outra.

Na prática, descobrir a origem da mordida profunda exige olhar para o conjunto. Mais do que dar um nome ao problema, o diagnóstico precisa responder: o excesso de sobreposição vem principalmente dos dentes, do padrão esquelético ou dos dois?

Mordida profunda é apenas uma questão estética?

Não. A aparência do sorriso pode ser um dos motivos que levam alguém a perceber a mordida profunda, mas a importância dessa alteração não deve ser avaliada apenas pela estética.

Quando a sobreposição é acentuada, os dentes inferiores podem ficar pouco visíveis ao sorrir ou ao fechar a boca. Para algumas pessoas, esse é o aspecto que mais incomoda. Em outras, porém, a atenção do ortodontista estará principalmente na forma como os dentes superiores e inferiores entram em contato.

Isso porque existem mordidas profundas com características bastante diferentes.

Uma pessoa pode apresentar uma sobremordida aumentada sem trauma nos tecidos ou desgaste importante. Outra pode ter incisivos inferiores tocando a região posterior dos dentes superiores ou os tecidos próximos ao palato. Também podem existir contatos concentrados entre determinados dentes. Essas diferenças precisam ser observadas individualmente.

Por isso, o número de dentes inferiores que aparecem no sorriso não determina sozinho a necessidade de tratamento.

O ortodontista considera o conjunto: a intensidade da sobreposição, quais dentes estão entrando em contato, se existe trauma aos tecidos, sinais de desgaste, o padrão facial, a posição dos incisivos e as expectativas de quem procura tratamento.

Outro cuidado importante é não transformar qualquer sintoma presente em consequência automática da mordida profunda. Uma pessoa pode, por exemplo, apresentar dor muscular, estalos na mandíbula ou bruxismo ao mesmo tempo em que possui uma sobremordida aumentada. Isso não significa, por si só, que a mordida profunda seja a causa desses problemas.

Essa distinção é especialmente importante porque a relação entre características da oclusão e disfunções mandibulares é mais complexa do que uma sequência simples de causa e efeito. Uma revisão sobre os efeitos das más oclusões já diferenciava alterações potencialmente traumáticas da relação muito menos clara entre irregularidades dentárias e disfunção mandibular.

Então, antes de pensar em corrigir a mordida apenas porque “os dentes de cima escondem os de baixo”, é preciso entender o que aquele excesso de sobreposição está produzindo naquele caso específico.

Quando a mordida profunda pode machucar dentes ou gengiva?

Ter uma sobremordida aumentada não significa, por si só, que haverá lesão. O que importa é como os dentes entram em contato quando a boca se fecha e se esse contato está atingindo estruturas que não deveriam receber aquela pressão de forma repetida.

Em alguns casos mais acentuados, os incisivos inferiores podem alcançar os tecidos atrás dos dentes superiores. Em outros, os próprios dentes anteriores podem estabelecer contatos intensos entre si. É nessas situações que a mordida profunda deixa de ser apenas uma característica do encaixe e pode passar a ter repercussões clínicas. A literatura descreve trauma de tecidos moles e desgaste dentário entre os problemas que podem estar presentes em sobremordidas profundas traumáticas.

Contato dos incisivos com os tecidos

Imagine fechar a boca e perceber que os dentes inferiores não encontram apenas os dentes superiores, mas chegam a tocar a gengiva ou a região do palato logo atrás deles.

Quando esse contato é repetitivo e traumático, pode ocorrer irritação ou lesão dos tecidos. É o que diferencia uma mordida profunda de uma mordida profunda traumática: não basta existir bastante sobreposição; é preciso observar se aquele encaixe está efetivamente causando trauma.

Isso também ajuda a explicar por que duas pessoas com sobremordidas visualmente parecidas podem receber recomendações diferentes. Uma pode apresentar apenas maior recobrimento dos incisivos, enquanto outra mostra sinais de contato traumático que aumentam a relevância clínica do problema.

Em estudos com crianças, por exemplo, nem todas as pessoas classificadas com mordida profunda apresentavam trauma gengival ou palatino, reforçando que a consequência não é automática.

Por isso, olhar no espelho e estimar quanto os dentes se cobrem não substitui a avaliação do tipo de contato que acontece quando a mordida se fecha.

Desgaste dentário e contatos concentrados

O desgaste é outro ponto que precisa ser explicado com cuidado.

Uma sobremordida profunda pode estar associada a situações em que determinados dentes anteriores recebem contatos desfavoráveis, e casos de deep overbite são descritos na literatura em conjunto com desgaste dentário.

Mas isso não significa que mordida profunda seja sinônimo de dentes desgastados, nem que ela seja a única explicação quando o desgaste aparece.

O desgaste dentário é um fenômeno que pode envolver diferentes mecanismos e fatores individuais. Por isso, ao encontrar incisivos desgastados em alguém com mordida profunda, o objetivo do diagnóstico não deve ser simplesmente concluir que “a mordida causou tudo”, mas avaliar como aqueles dentes se encontram e quais outros fatores também podem estar participando.

Na prática, sinais como alterações na borda dos incisivos, contatos traumáticos ou marcas nos tecidos ajudam a mostrar que a análise precisa ir além da aparência do sorriso.

É justamente essa individualização que evita dois extremos: tratar toda mordida profunda como inofensiva ou apresentar toda sobremordida aumentada como se inevitavelmente fosse danificar dentes e gengivas.

O que determina a importância clínica é o conjunto de achados de cada pessoa.

Mordida profunda causa dor na mandíbula, DTM ou bruxismo?

Essa associação precisa ser tratada com cuidado.

Uma pessoa com mordida profunda pode também apresentar dor na mandíbula, estalos, limitação de movimento, tensão muscular ou bruxismo. Mas encontrar essas condições ao mesmo tempo não significa que a sobremordida tenha sido a causa delas.

As disfunções temporomandibulares, ou DTMs, formam um grupo de condições que podem envolver a articulação temporomandibular, os músculos da mastigação e estruturas relacionadas. Hoje, o entendimento é de que sua origem pode envolver uma combinação de fatores biológicos, psicológicos e relacionados à forma como cada pessoa percebe e responde à dor. O National Institute of Dental and Craniofacial Research (NIDCR), ligado aos National Institutes of Health dos Estados Unidos, afirma que as evidências não sustentam a ideia de que uma “mordida ruim”, por si só, seja causa de DTM.

Isso não significa que a oclusão deva ser ignorada durante o exame. Significa que não podemos olhar para uma mordida profunda e concluir automaticamente que ela explica uma dor mandibular.

Essa cautela aparece também em estudos clínicos. Em uma pesquisa que comparou pacientes com e sem DTM, a presença ou a intensidade da mordida profunda não apresentou associação com DTM dolorosa nem com deslocamento do disco da articulação. Já o bruxismo do sono e o bruxismo em vigília apresentaram associação com quadros dolorosos de DTM naquele grupo estudado.

É uma diferença importante: associação entre bruxismo e dor não transforma a mordida profunda na origem do bruxismo.

O próprio conceito atual de bruxismo o descreve como uma atividade repetitiva dos músculos da mandíbula, que pode acontecer durante o sono ou enquanto a pessoa está acordada. Ele é estudado como uma condição própria, com características e fatores associados que vão além do encaixe dos dentes.

Então por que avaliar a mordida se existe dor?

Porque cada problema precisa ser identificado corretamente.

Se uma pessoa apresenta mordida profunda e, ao mesmo tempo, sente dor na região da mandíbula, o ortodontista pode avaliar os contatos dentários e o padrão da oclusão, mas os sintomas musculares ou articulares também precisam de investigação específica.

Estalos dolorosos, dificuldade ou limitação para abrir a boca, travamentos e dor nos músculos da mastigação estão entre os sinais que podem aparecer em quadros de DTM. Um estalo isolado e sem dor, por outro lado, é comum e não significa necessariamente que exista uma doença que precise ser tratada.

O ponto principal é evitar uma promessa que parece simples, mas pode ser enganosa: corrigir a mordida profunda não deve ser apresentado como garantia de eliminar DTM, dor mandibular ou bruxismo.

Se a sobremordida precisa ser corrigida, essa indicação deve se apoiar nas características ortodônticas daquele caso, como contatos traumáticos, relação entre os dentes, função, estética e planejamento da movimentação. Se existe também dor ou outro sintoma mandibular, ele merece diagnóstico próprio.

Como o ortodontista descobre por que sua mordida é profunda?

Identificar que os dentes superiores cobrem demais os inferiores é apenas o começo. Para planejar a correção, o ortodontista precisa entender qual combinação de fatores está produzindo aquela sobremordida aumentada.

Essa investigação é importante porque uma mordida profunda pode ter predomínio dentário, esquelético ou apresentar componentes dos dois tipos. Estudos que analisam pacientes com esse tipo de má oclusão mostram justamente variações nas características dos incisivos, dos dentes posteriores e das proporções esqueléticas.

Em outras palavras, o diagnóstico não serve apenas para confirmar que existe uma mordida profunda. Ele precisa ajudar a responder de onde vem o excesso de sobreposição e quais movimentos fariam sentido naquele caso.

O que é observado no exame clínico

Durante a avaliação, o ortodontista observa como os dentes se encaixam quando a boca fecha e quanto os incisivos superiores recobrem os inferiores.

Mas o exame não para aí.

Também é importante avaliar a posição e a inclinação dos dentes anteriores, a relação dos dentes posteriores, a presença de contatos traumáticos, sinais de desgaste e as proporções do sorriso e da face.

Outro ponto é observar onde está o componente vertical do problema. Em uma pessoa, os incisivos podem ter participação predominante. Em outra, a relação dos dentes posteriores ou o padrão facial pode ter um peso maior.

É essa diferença que evita uma conclusão simplista como “a mordida está profunda, então basta levantar os dentes”.

Se você quiser entender como o ortodontista analisa o encaixe dos dentes de forma mais ampla, veja também como identificar uma mordida desalinhada e quais características entram no diagnóstico.

O que exames e registros acrescentam

Os registros ortodônticos ajudam a complementar aquilo que é observado diretamente no consultório.

Fotografias permitem documentar o sorriso, as relações dentárias e características faciais. Modelos ou escaneamentos da boca ajudam a analisar o encaixe dos dentes e a própria oclusão com mais detalhe.

Quando indicada, a análise cefalométrica também pode contribuir para diferenciar os componentes dentários e esqueléticos das alterações verticais. A literatura ortodôntica destaca há décadas a importância dessa análise no diagnóstico diferencial de mordidas abertas e profundas.

Isso não significa que exista um exame isolado capaz de dizer, sozinho, qual é o melhor tratamento.

A decisão surge da combinação entre exame clínico, registros, características faciais, relações dentárias e objetivos do tratamento.

Essa etapa é especialmente importante porque a causa interfere na mecânica escolhida. Se o problema estiver predominantemente nos incisivos, uma estratégia pode fazer sentido. Se os dentes posteriores ou o componente esquelético tiverem participação importante, o planejamento pode mudar.

É justamente por isso que o tratamento da mordida profunda não começa pela pergunta “qual aparelho usar?”. Primeiro, é preciso entender o que precisa ser movimentado e em qual direção.

Como a mordida profunda pode ser corrigida?

Não existe um único movimento capaz de corrigir todas as mordidas profundas. O planejamento depende justamente do que apareceu no diagnóstico: quais dentes estão contribuindo para o excesso de sobreposição, quais são as características faciais e onde existe espaço biomecânico para fazer a correção.

De forma geral, a Ortodontia pode reduzir a sobremordida por meio da intrusão dos dentes anteriores, da extrusão dos dentes posteriores, da alteração da posição dos incisivos ou da combinação desses movimentos. Uma revisão sistemática recente encontrou diferentes estratégias eficazes para reduzir a mordida profunda, sem apontar uma técnica universalmente superior para todos os pacientes.

Por isso, a escolha não deveria começar com “qual aparelho abre a mordida?”. Primeiro vem outra pergunta: o que precisa se movimentar para corrigir a mordida daquela pessoa sem criar um problema em outra parte da oclusão?

Intrusão dos dentes anteriores

Intruir um dente significa movimentá-lo ortodonticamente em direção ao osso que o sustenta, reduzindo sua posição vertical em relação aos demais dentes.

Na mordida profunda, essa estratégia pode ser utilizada nos incisivos superiores, inferiores ou em ambos, dependendo de onde está o componente anterior do problema. A intrusão é uma das mecânicas clássicas utilizadas para diminuir a sobremordida, especialmente quando o planejamento busca evitar que a correção dependa apenas do aumento da altura dos dentes posteriores.

Esse movimento exige controle biomecânico. Não basta aplicar força sobre os incisivos: direção, intensidade, inclinação dentária e ancoragem precisam ser consideradas durante o planejamento.

Em alguns casos, recursos de ancoragem esquelética, como os mini-implantes ortodônticos, podem ser utilizados para auxiliar a intrusão. Eles funcionam como pontos temporários de apoio para determinadas mecânicas.

Isso não significa que mini-implante seja necessário em toda mordida profunda nem que seja automaticamente melhor do que as técnicas convencionais. Revisões sobre o tema encontraram resultados favoráveis para intrusão com ancoragem esquelética, mas também ressaltam limitações e baixa certeza em parte das evidências disponíveis.

Extrusão dos dentes posteriores

Outra possibilidade é promover movimento vertical dos dentes posteriores, aumentando sua participação na altura da mordida.

Quando molares e pré-molares se movimentam verticalmente, a relação entre as arcadas também pode mudar e contribuir para reduzir a sobreposição dos incisivos. Esse mecanismo é particularmente relevante em alguns padrões faciais, mas não é desejável da mesma maneira para todas as pessoas.

Aqui aparece novamente a importância do diagnóstico facial.

Em determinados pacientes, ganhar altura posteriormente pode combinar com os objetivos do tratamento. Em outros, promover extrusão indiscriminadamente pode produzir alterações verticais que não são desejadas.

Por isso, frases como “para corrigir mordida profunda é só levantar os dentes de trás” simplificam demais uma decisão biomecânica que depende das proporções faciais e dentárias de cada caso.

Combinação de movimentos e controle de ancoragem

Na prática, a correção muitas vezes não depende de escolher entre intrusão ou extrusão.

O ortodontista pode combinar movimentos: intruir determinados incisivos, alterar sua inclinação, controlar os dentes posteriores e coordenar as arcadas ao longo do tratamento. A literatura sobre correção da mordida profunda descreve justamente essa combinação de estratégias como parte do planejamento ortodôntico.

O aparelho fixo permite construir diferentes mecânicas para isso. Arcos específicos e recursos auxiliares de ancoragem também podem entrar no planejamento de acordo com os movimentos necessários.

É por esse motivo que duas pessoas diagnosticadas com “mordida profunda” podem usar aparelho fixo e, ainda assim, receber tratamentos biomecanicamente diferentes.

E os alinhadores transparentes?

Os alinhadores também podem participar da correção de determinados casos de mordida profunda.

Estudos mostram redução da sobremordida com alinhadores transparentes, inclusive por meio de movimentos envolvendo incisivos e dentes posteriores. Ao mesmo tempo, há diferenças entre os movimentos programados digitalmente e aqueles efetivamente obtidos, e a previsibilidade varia conforme o movimento e as características do caso.

Isso é importante porque a simulação mostrada no computador representa um planejamento, não uma garantia de que cada dente executará exatamente o movimento previsto.

Além disso, alinhadores não constituem uma única mecânica usada da mesma forma para toda mordida profunda. Recursos auxiliares, características da própria sequência de movimentação, colaboração no uso e eventuais refinamentos podem fazer parte do tratamento.

No fim, aparelho fixo, alinhadores, mini-implantes ou outros recursos são ferramentas. A escolha vem depois de entender se aquela mordida precisa de intrusão, extrusão, alteração da posição dos incisivos ou uma combinação desses movimentos.

O tratamento da mordida profunda é diferente em adultos?

Adultos também podem corrigir uma mordida profunda. O fato de o crescimento facial já ter terminado não impede a movimentação ortodôntica dos dentes, mas muda algumas decisões do planejamento.

Na infância e na adolescência, dependendo do estágio de desenvolvimento, o ortodontista pode considerar o crescimento como parte do diagnóstico e da estratégia terapêutica. No adulto, esse crescimento já não está disponível como um fator que possa ser acompanhado ou aproveitado da mesma maneira.

Por isso, a pergunta deixa de ser simplesmente “dá para tratar depois de adulto?” e passa a ser: qual é a origem da mordida profunda e quais movimentos são possíveis e adequados naquele momento da vida?

Os dentes continuam podendo ser movimentados

A movimentação ortodôntica acontece por meio da remodelação dos tecidos que sustentam o dente. Esse processo continua ocorrendo na vida adulta.

A idade, porém, pode influenciar a resposta biológica. Revisões que compararam diferentes faixas etárias indicam que adultos tendem, em média, a apresentar movimentação dentária mais lenta do que pacientes mais jovens, principalmente nas fases iniciais do movimento. Isso não significa que exista uma idade-limite universal para usar aparelho, mas reforça que a resposta biológica e o planejamento precisam ser individualizados.

No caso específico da mordida profunda, há estudos e revisões avaliando estratégias como intrusão dos incisivos, extrusão posterior e diferentes formas de controle de ancoragem em pacientes adultos.

Saúde periodontal e histórico dentário ganham importância

Em adultos, o ortodontista também precisa olhar com atenção para gengiva, osso de suporte e condições periodontais existentes.

Isso é especialmente relevante em quem já teve doença periodontal, perda óssea ou outros comprometimentos dos tecidos que sustentam os dentes. A presença dessas condições não significa automaticamente que o tratamento ortodôntico seja inviável, mas pode exigir controle periodontal e planejamento conjunto antes e durante a movimentação. Uma revisão sistemática encontrou que pacientes com periodontite estabilizada podem ser submetidos à movimentação ortodôntica, embora a qualidade das evidências disponíveis ainda seja limitada.

Restaurações, coroas, implantes, ausência de dentes e desgaste dentário também podem mudar a estratégia.

Uma pessoa que chega à vida adulta com mordida profunda e dentes bastante desgastados, por exemplo, pode exigir um planejamento diferente de outra pessoa da mesma idade com a mesma quantidade aparente de sobremordida, mas dentes e periodonto preservados.

Por isso, em alguns casos, o tratamento pode envolver interação entre Ortodontia e outras áreas da Odontologia.

E quando existe um componente esquelético importante?

Esse é outro ponto em que ser adulto faz diferença.

Quando a mordida profunda está associada a uma discrepância esquelética relevante, não existe mais crescimento facial a ser considerado da mesma maneira que em uma pessoa em desenvolvimento. O ortodontista precisa então avaliar o quanto pode ser corrigido por movimentação dentária e qual é o objetivo do tratamento para as bases ósseas e para a face.

Em alguns casos, uma correção ortodôntica dentária pode atender aos objetivos planejados. Em discrepâncias esqueléticas mais importantes, principalmente quando se pretende corrigir também a relação entre as bases ósseas, pode ser necessário discutir tratamento ortodôntico associado à cirurgia ortognática. A indicação, entretanto, não é feita simplesmente porque a pessoa tem mordida profunda: depende do diagnóstico esquelético completo e dos objetivos daquele caso.

Isso também evita uma ideia equivocada comum: “se eu não tratei quando era criança, agora só cirurgia resolve”.

Não é assim. Muitos adultos podem ser tratados ortodonticamente, inclusive com diferentes mecânicas para redução da sobremordida. Em outros casos, a discrepância esquelética pode mudar as possibilidades e os limites do que somente a movimentação dentária consegue entregar.

O que define a estratégia não é apenas a idade. É a combinação entre origem da mordida profunda, condição dos dentes e tecidos de suporte, características faciais, gravidade da discrepância e objetivos do tratamento.

Nem toda mordida profunda precisa do mesmo tratamento

Depois de entender as possíveis causas, consequências e formas de correção, fica mais fácil perceber por que “mordida profunda” é um diagnóstico que ainda precisa ser detalhado.

O excesso de sobreposição pode estar relacionado principalmente à posição dos incisivos, à relação vertical dos dentes posteriores, ao padrão esquelético ou a uma combinação desses fatores. Além disso, duas pessoas com uma sobremordida visualmente semelhante podem ter condições periodontais, proporções faciais, desgastes dentários e objetivos de tratamento completamente diferentes.

É por isso que o planejamento não deveria começar pela escolha do aparelho.

A pergunta mais importante não é:

“Qual aparelho corrige mordida profunda?”

E sim:

“Quais movimentos precisam acontecer para corrigir esta mordida profunda?”

A partir dessa resposta, o ortodontista pode avaliar quais recursos permitem executar o planejamento de forma adequada. Em determinados casos, isso pode envolver aparelho fixo. Em outros, alinhadores transparentes podem fazer parte da estratégia. Também existem situações em que recursos auxiliares de ancoragem são úteis.

A literatura sobre tratamento da sobremordida mostra justamente essa variedade de abordagens. Intrusão dos incisivos, extrusão de dentes posteriores e combinações entre diferentes movimentos são estratégias descritas, e a escolha depende das características dentárias, esqueléticas e faciais de cada paciente.

Também é importante definir qual é o objetivo da correção.

Em uma pessoa, a preocupação principal pode estar em um contato traumático com os tecidos. Em outra, pode existir desgaste associado aos contatos anteriores. Há ainda quem procure tratamento principalmente pela aparência do sorriso ou porque a mordida profunda faz parte de uma má oclusão mais ampla.

Isso ajuda a evitar dois erros comuns: tratar toda sobremordida aumentada como se fosse obrigatoriamente grave ou, no extremo oposto, considerar que ela é sempre apenas uma questão estética.

Se você ainda está entendendo onde a mordida profunda se encaixa entre as alterações verticais, veja também a diferença entre mordida aberta e mordida profunda e como essas condições são avaliadas.

E existe uma pergunta que merece um conteúdo próprio: alinhadores como o Invisalign conseguem corrigir mordida profunda com a mesma previsibilidade em todos os casos? Não necessariamente. A resposta depende dos movimentos necessários, da gravidade do problema e das características de cada tratamento.

No fim, o nome “mordida profunda” descreve o que vemos na relação vertical dos dentes. O tratamento depende de descobrir por que essa relação está aumentada naquele caso e o que realmente precisa ser corrigido.

Entender a causa vem antes de escolher como corrigir

Perceber que os dentes superiores cobrem bastante os inferiores pode ser o primeiro sinal de uma mordida profunda, mas o diagnóstico não termina aí.

O que realmente orienta o tratamento é entender por que essa sobreposição está aumentada: se o componente principal está nos incisivos, nos dentes posteriores, no padrão esquelético ou em uma combinação desses fatores. Também importa saber se existem contatos traumáticos, desgaste, alterações nos tecidos e quais são os objetivos de cada pessoa com o tratamento.

Por isso, duas mordidas profundas que parecem semelhantes no espelho podem exigir planejamentos diferentes.

Aparelho fixo, alinhadores transparentes e recursos auxiliares são possibilidades dentro da Ortodontia, mas a escolha da ferramenta vem depois do diagnóstico e da definição dos movimentos necessários.

Se você percebe que seus dentes superiores cobrem demais os inferiores ou já recebeu o diagnóstico de mordida profunda, uma avaliação ortodôntica pode ajudar a entender qual é o seu tipo de sobremordida e se existe indicação de tratamento.

Na RQ Ortodontia, o planejamento é individualizado de acordo com as características da mordida e os objetivos de cada caso. Para agendar uma avaliação, fale comigo pelo WhatsApp e conte o que você gostaria de avaliar no seu sorriso.

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