Quem convive com zumbido às vezes percebe algo curioso: basta apertar os dentes, abrir mais a boca, projetar a mandíbula ou movimentar o pescoço para o som mudar. Ele pode ficar mais forte, mais fraco ou simplesmente diferente.
Esse comportamento é uma das características que podem aparecer no zumbido somatossensorial, um subtipo em que informações provenientes de regiões como mandíbula, face e pescoço conseguem influenciar a percepção do zumbido. Isso é possível porque os sistemas somatossensorial e auditivo possuem vias de interação no sistema nervoso.
Mas existe um cuidado importante. Se você consegue modificar o zumbido movimentando a mandíbula, isso não significa automaticamente que a causa esteja na ATM, na mordida ou em uma DTM. A própria modulação pode ocorrer em pessoas nas quais a influência somatossensorial não é o principal componente do quadro.
Na minha avaliação, essa informação funciona como uma pista. Ela ganha significado quando é analisada junto com o histórico do zumbido, sintomas na mandíbula e no pescoço, exame clínico e avaliação auditiva.
O que significa dizer que um zumbido é somatossensorial?
O termo zumbido somatossensorial é usado quando informações vindas do sistema somatossensorial, especialmente de regiões como mandíbula e pescoço, influenciam a percepção do zumbido.
O sistema somatossensorial é responsável por levar ao cérebro informações relacionadas a movimento, posição, pressão, tensão muscular e outras sensações do corpo. Embora pareça estranho relacionar essas informações a um som percebido no ouvido, os sistemas auditivo e somatossensorial não funcionam de maneira completamente isolada. Existem conexões entre essas vias no sistema nervoso.
É por isso que algumas pessoas percebem mudanças no zumbido ao abrir a boca, projetar a mandíbula, apertar os dentes, tensionar determinados músculos ou movimentar o pescoço. Essa capacidade de alterar momentaneamente alguma característica do som é chamada de modulação somatossensorial do zumbido.
Mas existe uma diferença importante entre conseguir modular o zumbido e receber um diagnóstico de zumbido somatossensorial.
Um consenso internacional elaborado por especialistas estabeleceu diversos critérios que podem aumentar a suspeita desse subtipo de zumbido. A modulação por movimentos voluntários da cabeça, do pescoço, da mandíbula ou dos olhos está entre eles, assim como a alteração do zumbido ao realizar determinadas manobras musculares. No entanto, nenhum desses critérios precisa estar presente em todas as pessoas com zumbido somatossensorial.
Da mesma forma, conseguir mudar o som ao movimentar a mandíbula não confirma sozinho que o zumbido tenha origem na ATM ou em uma DTM.
Na minha avaliação, esse tipo de relato tem valor porque acrescenta uma informação ao quadro clínico. Se uma pessoa percebe que o zumbido acompanha mudanças na tensão da mandíbula ou do pescoço, por exemplo, isso pode aumentar a suspeita de participação somatossensorial. Essa informação precisa ser analisada junto com outras características do zumbido e com os sintomas associados.
Uma revisão sobre diagnóstico e tratamento do zumbido somatossensorial reforça justamente essa dificuldade. Muitas pessoas têm mais de um fator capaz de influenciar o sintoma, por isso identificar o peso real do componente somatossensorial exige avaliação clínica e não apenas uma manobra isolada.
Em outras palavras, zumbido somatossensorial não significa simplesmente “zumbido causado pela mandíbula”. O conceito é mais amplo. Ele indica que informações provenientes de estruturas musculoesqueléticas podem participar da forma como aquele zumbido é percebido.
Por que mexer a mandíbula pode mudar o zumbido?
A explicação não está simplesmente no fato de a articulação da mandíbula ficar perto do ouvido. O mecanismo é mais interessante do que uma relação de proximidade entre estruturas.
Quando você abre a boca, aperta os dentes, desloca a mandíbula ou contrai determinados músculos, o sistema nervoso recebe informações sobre posição, movimento e tensão dessas estruturas. Parte desses sinais somatossensoriais pode interagir com regiões envolvidas no processamento auditivo.
É essa comunicação que ajuda a explicar por que um movimento que aparentemente não tem relação com a audição consegue, em algumas pessoas, modificar temporariamente a percepção do zumbido.
Essa mudança pode acontecer sem que exista qualquer som novo no ambiente. O que se modifica é a atividade neural relacionada à forma como aquele sinal é processado e percebido.
O sistema auditivo também recebe influência de sinais da face e do pescoço
É comum imaginar a audição como um sistema isolado: o ouvido recebe o som, envia a informação ao cérebro e pronto. A neurofisiologia é mais complexa.
Estudos anatômicos e experimentais mostram conexões entre vias somatossensoriais da cabeça e do pescoço e núcleos envolvidos no processamento auditivo. Informações provenientes do sistema trigeminal e da região cervical podem chegar a estruturas do tronco encefálico que também recebem informações relacionadas à audição.
Isso permite uma espécie de integração entre sinais de origens diferentes. Em determinadas condições, uma mudança na entrada somatossensorial pode alterar a atividade de neurônios que participam do processamento do zumbido.
Por isso, movimentos da mandíbula, contrações musculares ou mudanças de posição do pescoço podem modificar o som percebido por algumas pessoas. A literatura descreve justamente a modulação por movimento ou contato físico como uma característica frequente do zumbido somatossensorial.
O papel das vias trigeminais e do núcleo coclear dorsal
Uma das estruturas mais estudadas nessa relação é o núcleo coclear dorsal, localizado no tronco encefálico e envolvido no processamento inicial das informações auditivas.
Pesquisas mostram que ele não recebe apenas informações relacionadas ao som. Também existem projeções provenientes de vias somatossensoriais, entre elas aquelas relacionadas ao sistema trigeminal e à região cervical. Esses sinais são capazes de alterar a atividade de neurônios do núcleo coclear.
O nervo trigêmeo é particularmente relevante nessa discussão porque participa da sensibilidade de grande parte da face e está relacionado a estruturas da região mandibular. Isso cria uma base neuroanatômica para compreender como informações relacionadas à mandíbula podem chegar a circuitos capazes de influenciar o processamento auditivo.
Estudos experimentais observaram que a estimulação de vias trigeminais pode produzir tanto aumento quanto redução da atividade de neurônios no núcleo coclear dorsal. Esse comportamento ajuda a explicar por que a modulação do zumbido não acontece sempre na mesma direção. Uma pessoa pode perceber o som mais intenso ao fazer determinado movimento, enquanto outra pode perceber redução ou mudança de característica.
O núcleo coclear dorsal é uma peça importante desse modelo, mas não deve ser apresentado como a única estrutura responsável pelo zumbido. O tinnitus é um fenômeno complexo, que pode envolver diferentes níveis do sistema auditivo e mecanismos de plasticidade neural. A literatura atual trata a interação auditiva e somatossensorial como parte dessa rede, não como uma explicação única para todos os casos.
Na prática, é assim que eu interpreto a mudança do som provocada pela mandíbula: ela mostra que existe uma interação possível entre o movimento e a percepção do zumbido, mas não identifica sozinha qual estrutura iniciou o sintoma nem estabelece sua causa.
O que pode mudar no zumbido quando você movimenta a mandíbula?
Quando existe modulação somatossensorial, o zumbido não precisa simplesmente ficar mais alto ou mais baixo. A pessoa pode perceber mudanças em diferentes características do som.
A alteração mais relatada é na intensidade. Apertar os dentes, abrir a boca ou deslocar a mandíbula pode fazer o zumbido parecer momentaneamente mais forte ou mais fraco. Também pode ocorrer mudança no pitch, que é a percepção de o som ficar mais agudo ou mais grave.
Em alguns casos, a própria qualidade do som pode parecer diferente. Um chiado pode adquirir outra tonalidade ou um som contínuo pode parecer mais evidente enquanto determinado movimento está sendo realizado.
Essas mudanças costumam estar relacionadas ao período em que a manobra é feita. Portanto, perceber que o som muda ao apertar os dentes por alguns segundos não significa necessariamente que houve uma alteração permanente do zumbido.
Um estudo clássico com pessoas que conseguiam modular voluntariamente o sintoma mostrou que movimentos da mandíbula podiam alterar tanto a intensidade quanto o pitch do zumbido. Naquela amostra específica, o aumento da intensidade foi mais frequente do que a redução. Esse resultado ajuda a demonstrar que a mandíbula pode interferir na percepção do som, mas não deve ser transformado em uma regra para todos os pacientes.
Outros estudos também observaram que manobras envolvendo mandíbula, cabeça e pescoço podem produzir respostas diferentes. Algumas aumentam o zumbido, outras diminuem, e muitas provocam apenas uma alteração discreta.
Por isso, eu considero importante saber o que muda, com qual movimento e em que contexto. Não é a mesma informação dizer que o zumbido aumenta ao apertar os dentes, diminui ao movimentar o pescoço ou muda de tonalidade ao abrir a boca.
Esses detalhes ajudam a caracterizar o comportamento do sintoma, mas não funcionam como um teste caseiro capaz de identificar sua causa.
Uma revisão sistemática publicada em 2026, focada em pessoas com DTM e zumbido, também encontrou relatos de modulação por movimentos mandibulares ou cervicais em parte dos pacientes. Ao mesmo tempo, os autores destacaram que os estudos disponíveis ainda apresentam limitações e que são necessários trabalhos maiores para confirmar padrões específicos.
Na prática, a mensagem mais importante é simples: o fato de o zumbido mudar com um movimento é uma informação clínica útil, mas a direção dessa mudança não determina sozinha de onde o sintoma vem.
Se o zumbido muda ao apertar os dentes, isso prova que ele vem da ATM?
Não. Perceber que o zumbido aumenta, diminui ou muda de tonalidade quando você aperta os dentes é uma informação importante, mas não prova que a ATM seja a causa do sintoma.
Essa distinção é fundamental porque a capacidade de modular o zumbido com movimentos da mandíbula pode acontecer em diferentes situações. Estudos mostram que existe uma relação entre alterações temporomandibulares e zumbido somatossensorial, mas a modulação também pode aparecer sem que uma DTM seja necessariamente a origem do problema.
Na prática, apertar os dentes modifica a atividade dos músculos mastigatórios e aumenta a entrada de informações somatossensoriais relacionadas à região mandibular. Como essas informações podem interagir com circuitos envolvidos no processamento auditivo, o zumbido pode mudar naquele momento.
Isso demonstra que existe capacidade de modulação, mas não responde sozinho à pergunta sobre a causa.
Por esse motivo, eu evito interpretações como “apertei os dentes e o zumbido aumentou, então meu problema é a ATM”. Para estabelecer se existe participação relevante da região temporomandibular, preciso observar o conjunto de sinais e sintomas e não apenas o resultado de uma manobra.
Modulação é uma pista clínica, não um diagnóstico isolado
O consenso internacional para identificação do zumbido somatossensorial coloca a modulação por movimentos da mandíbula, cabeça ou pescoço entre os critérios que podem aumentar a suspeita desse subtipo. Mas os especialistas não estabeleceram uma única manobra capaz de confirmar o diagnóstico.
Outros elementos ajudam a tornar essa hipótese mais consistente. É diferente, por exemplo, encontrar apenas uma alteração momentânea do som ao apertar os dentes e encontrar essa modulação em uma pessoa que também apresenta dor na mandíbula ou no pescoço e percebe uma relação temporal entre o aparecimento ou a piora desses sintomas e o zumbido.
Pesquisas que compararam histórico de alterações temporomandibulares e cervicais com a capacidade de modular o zumbido encontraram uma relação entre esses fatores, mas também mostraram que usar somente a modulação como ferramenta de triagem é insuficiente.
Uma revisão dedicada às manobras somáticas chegou à mesma cautela. Embora esses movimentos possam fornecer informações úteis durante a investigação, os resultados dos estudos ainda são heterogêneos e não permitem transformar essas manobras em um teste diagnóstico definitivo.
Por isso, eu considero muito mais útil saber que o seu zumbido muda com a mandíbula e investigar em que contexto isso acontece do que tentar reproduzir o movimento repetidamente em casa.
A modulação é uma peça do quebra-cabeça. Quando aparece junto de outros sinais relacionados à mandíbula, aos músculos mastigatórios ou à região cervical, ela pode reforçar a hipótese de participação somatossensorial. Ainda assim, a investigação do zumbido não deve partir da conclusão de que todo o problema está na ATM.
Quais sinais tornam a hipótese de zumbido somatossensorial mais relevante?
A capacidade de mudar o zumbido movimentando a mandíbula chama atenção, mas ela ganha muito mais valor quando aparece acompanhada de outros sinais.
O consenso internacional sobre zumbido somatossensorial reuniu características que, quando presentes, aumentam a suspeita de participação do sistema somatossensorial. Entre elas estão uma relação temporal entre o início ou a mudança do zumbido e sintomas na mandíbula ou no pescoço, dor cervical ou temporomandibular que piora junto com o zumbido, aumento do sintoma durante determinadas posturas e presença de tensão muscular.
Isso não significa que exista uma lista que precise ser preenchida para confirmar o diagnóstico. O que importa é perceber se existe uma relação consistente entre o comportamento do zumbido e alterações musculoesqueléticas.
Por exemplo, considero diferente uma pessoa que ocasionalmente consegue aumentar o som apertando os dentes daquela que relata que o zumbido surgiu no mesmo período em que começou uma dor mandibular, piora quando a musculatura está mais tensa e também se modifica com os movimentos da mandíbula.
Esse conjunto torna a hipótese somatossensorial mais relevante.
Uma ferramenta de triagem publicada em 2022 reforçou essa lógica ao combinar diferentes características clínicas em vez de depender apenas da capacidade de modular o zumbido. Isso ajuda a explicar por que nenhum movimento isolado deve ser tratado como teste definitivo.
Quando DTM e sintomas mandibulares entram na investigação
Dor na região da mandíbula, dificuldade ou desconforto para abrir a boca, estalos, sensação de tensão nos músculos mastigatórios e outros sinais de disfunção temporomandibular podem ser informações relevantes quando aparecem junto com o zumbido.
A associação entre DTM e tinnitus é descrita na literatura, e estudos recentes continuam encontrando uma relação entre as duas condições. Isso, porém, não significa que toda pessoa com DTM terá zumbido nem que todo zumbido acompanhado de algum sintoma mandibular seja causado pela articulação temporomandibular.
Uma publicação de 2026 dedicada às alterações de mandíbula e pescoço em pessoas com zumbido somatossensorial reforça a importância de avaliar essas regiões de forma específica. O objetivo é identificar disfunções musculoesqueléticas que realmente possam estar contribuindo para o quadro, em vez de assumir essa relação apenas porque a mandíbula consegue modificar o som.
Na minha avaliação, procuro entender se os sintomas conversam entre si. Quero saber quando começaram, o que faz cada um piorar ou melhorar e se mudanças na mandíbula ou no pescoço acompanham mudanças no zumbido.
Se existem sintomas como dor, estalos, limitação de abertura ou desconforto na região temporomandibular, vale investigar a DTM como parte desse contexto. Para entender melhor esses sinais, tenho um conteúdo específico sobre o tema: Sintomas de DTM: sinais mais comuns e quando procurar ajuda
Também aprofundo a relação entre as duas condições neste conteúdo: Zumbido e DTM: tensão na mandíbula e incômodo no ouvido
O ponto central é que a hipótese de zumbido somatossensorial fica mais consistente quando a modulação não aparece sozinha, mas faz parte de um conjunto coerente de sinais e sintomas.
Como o zumbido somatossensorial é investigado?
Não existe um exame único que confirme o zumbido somatossensorial. A investigação depende da combinação entre a história do sintoma, suas características e a avaliação das regiões que podem estar fornecendo estímulos somatossensoriais relevantes.
Uma das primeiras coisas que procuro entender é como o zumbido se comporta. Pergunto quando começou, se é constante ou variável, se houve alguma mudança próxima ao aparecimento de dor ou tensão na mandíbula ou no pescoço e se determinadas posições ou movimentos modificam o som.
Também importa saber exatamente o que acontece durante essa modulação. O zumbido muda quando a pessoa abre a boca? Aperta os dentes? Projeta a mandíbula? Movimenta o pescoço? Essa mudança ocorre sempre ou apenas em determinados períodos?
Essas informações ajudam a construir o raciocínio clínico, mas não são interpretadas isoladamente.
O consenso internacional sobre zumbido somatossensorial inclui entre os elementos relevantes tanto características de modulação quanto a relação temporal entre o zumbido e sintomas temporomandibulares ou cervicais. Estudos posteriores propuseram ferramentas para facilitar essa identificação, mas continuam reforçando que o diagnóstico depende de um conjunto de informações.
Quando existem queixas na região mandibular, avalio também sinais de DTM, função dos movimentos da mandíbula e musculatura relacionada. Se houver sintomas cervicais, a investigação dessa região também pode ser necessária.
Isso é especialmente importante porque o componente somatossensorial pode estar relacionado à região temporomandibular, à cervical ou às duas. Uma publicação de 2026 sobre disfunções de mandíbula e pescoço em pessoas com zumbido somatossensorial reforça justamente a necessidade de identificar quais alterações musculoesqueléticas estão realmente presentes em cada pessoa.
Se você quiser entender melhor quais sintomas costumam levar a uma investigação da articulação e dos músculos da mandíbula, expliquei isso separadamente em Sintomas de DTM: sinais mais comuns e quando procurar ajuda.
A avaliação não deve ficar restrita à mandíbula
Mesmo quando o zumbido muda claramente ao movimentar a mandíbula, eu não considero adequado assumir que toda a investigação deve ficar concentrada na ATM.
Zumbido pode coexistir com alterações auditivas e com outras condições que precisam ser identificadas. Por isso, a avaliação do sistema auditivo continua importante. A diretriz do NICE recomenda avaliação audiológica para pessoas com zumbido, independentemente de existir ou não uma possível influência somatossensorial.
Dependendo das características do caso, diferentes profissionais podem participar da investigação. Otorrinolaringologia e audiologia avaliam aspectos relacionados ao ouvido e à audição. Quando há sinais temporomandibulares, a avaliação odontológica pode investigar a função da mandíbula e a presença de DTM. Se houver envolvimento cervical ou muscular, a fisioterapia também pode fazer parte desse cuidado.
Essa abordagem evita dois erros opostos. O primeiro é ignorar completamente mandíbula e pescoço em alguém cujo zumbido apresenta características somatossensoriais. O segundo é atribuir o sintoma à ATM antes que outras possibilidades tenham sido adequadamente consideradas.
Na minha avaliação, o objetivo não é encontrar rapidamente uma única estrutura para responsabilizar pelo zumbido. É identificar quais fatores estão presentes e quanto cada um deles pode estar participando do quadro.
Tratar a mandíbula pode fazer o zumbido melhorar?
Em alguns casos, sim. Quando existe uma participação somatossensorial relevante e alterações temporomandibulares ou musculoesqueléticas estão envolvidas no quadro, tratar essas alterações pode contribuir para diminuir a intensidade ou o impacto do zumbido.
Mas isso não significa que qualquer tratamento da mandíbula vá melhorar qualquer tipo de zumbido.
Essa diferença é fundamental. Antes de pensar em tratar ATM, musculatura ou mordida com o objetivo de interferir no sintoma auditivo, é preciso identificar se existe realmente uma condição musculoesquelética associada e se há sinais de que ela participa do quadro.
Um ensaio clínico randomizado avaliou pessoas com zumbido somatossensorial relacionado à região temporomandibular. O tratamento foi conservador e multidisciplinar, incluindo orientação e fisioterapia orofacial, com uso de placa oclusal nos participantes que apresentavam ranger de dentes. Os pesquisadores observaram melhora clinicamente relevante em uma das medidas utilizadas para avaliar o impacto do zumbido.
Esse resultado é interessante, mas precisa ser lido dentro do contexto correto. Os participantes foram selecionados justamente por apresentarem características compatíveis com zumbido somatossensorial relacionado à região temporomandibular. Portanto, o estudo não demonstra que tratar a mandíbula seja uma solução geral para pessoas com zumbido.
Uma revisão sistemática publicada em 2023 chegou a uma conclusão semelhante ao analisar intervenções fisioterapêuticas em pessoas com DTM associada a zumbido. Os quatro estudos incluídos encontraram redução da intensidade ou da gravidade do zumbido, mas os autores classificaram a certeza da evidência como baixa.
Outra revisão sistemática, publicada em 2024, analisou ensaios envolvendo abordagens de reabilitação para sintomas otológicos associados à DTM. Os resultados sugeriram potencial benefício para zumbido e otalgia secundários à DTM, mas novamente os autores destacaram a necessidade de estudos melhores e com amostras mais representativas.
Por isso, na minha prática, eu não parto do zumbido para indicar um tratamento odontológico. Eu procuro primeiro identificar se existe DTM, alteração funcional, dor muscular ou outro problema da região mandibular que tenha indicação própria de tratamento.
Se essa alteração existe e o comportamento do zumbido também sugere uma participação somatossensorial, a melhora do sintoma auditivo pode acontecer junto com o tratamento da condição musculoesquelética. Isso é diferente de prometer que tratar a ATM vai eliminar o zumbido.
A fisioterapia também ocupa um espaço importante nesse contexto. Ensaios clínicos avaliaram intervenções cervicomandibulares e encontraram melhora em medidas relacionadas ao zumbido em grupos selecionados de pacientes com DTM dolorosa e tinnitus somático.
Um estudo randomizado publicado em 2024 avaliou especificamente fisioterapia em pessoas com zumbido somatossensorial e também encontrou redução em medidas de gravidade do zumbido após a intervenção. Esses resultados reforçam o potencial de abordagens direcionadas ao componente musculoesquelético, mas não eliminam a necessidade de selecionar adequadamente quem pode se beneficiar.
Também é importante separar tratamento de DTM de tratamento ortodôntico. Corrigir a posição dos dentes não deve ser apresentado como tratamento rotineiro para zumbido. Uma eventual indicação de ortodontia precisa existir por razões ortodônticas e ser definida a partir do diagnóstico da mordida, não apenas porque a pessoa apresenta tinnitus.
Para quem apresenta dor, tensão, estalos, limitação de abertura ou outros sintomas mandibulares junto com o zumbido, detalho essa relação em Zumbido e DTM: tensão na mandíbula e incômodo no ouvido.
O ponto mais importante é manter a expectativa correta: em pacientes selecionados, tratar uma alteração somatossensorial associada pode ajudar no zumbido. Isso não transforma mandíbula, ATM ou mordida em explicações universais para o sintoma.
Quando o zumbido precisa de investigação médica mesmo que mude com a mandíbula?
O fato de o zumbido mudar quando você movimenta a mandíbula pode ser uma informação relevante para a investigação, mas não substitui a avaliação auditiva e médica quando ela é necessária.
Isso é importante porque uma mesma pessoa pode apresentar características somatossensoriais e, ao mesmo tempo, ter uma alteração auditiva ou outra condição que também precise ser considerada. Uma coisa não exclui a outra.
Alguns sinais merecem atenção especial.
Se o zumbido aparece acompanhado de perda auditiva súbita, especialmente quando a audição piora rapidamente em um período de até três dias, a orientação é procurar avaliação médica com rapidez. O National Institute on Deafness and Other Communication Disorders considera a perda auditiva neurossensorial súbita uma emergência médica, já que atrasar o diagnóstico e o tratamento pode reduzir a possibilidade de recuperação auditiva.
Diretrizes internacionais também recomendam encaminhamento imediato quando o zumbido aparece junto de sinais neurológicos súbitos, como fraqueza facial, vertigem aguda não controlada ou suspeita de acidente vascular cerebral. Quando existe perda auditiva que surgiu subitamente nos últimos 30 dias, a recomendação do NICE é avaliação em até 24 horas.
Outro cenário que precisa ser diferenciado é o zumbido pulsátil, percebido de forma rítmica e muitas vezes sincronizado com os batimentos cardíacos. Esse tipo de manifestação pode exigir investigação direcionada porque existem causas vasculares e estruturais que não têm relação com a mandíbula. O NIDCD destaca que exames de imagem podem fazer parte dessa avaliação conforme as características clínicas.
Zumbido persistente de um lado só, zumbido associado a perda auditiva unilateral ou assimétrica e zumbido objetivo persistente também são situações em que diretrizes recomendam avaliação específica.
Por isso, perceber que o som aumenta quando você aperta os dentes não deve levar à conclusão de que uma avaliação do ouvido deixou de ser necessária. A capacidade de modular o zumbido acrescenta uma pista, mas não apaga os demais sinais clínicos.
Eu considero mais seguro analisar essas informações em conjunto. Se existem características compatíveis com participação da mandíbula ou do pescoço, elas entram na investigação. Se existem sinais auditivos, neurológicos ou outras características que precisam de avaliação médica, esses caminhos também devem ser considerados.
O objetivo não é escolher entre “o zumbido vem do ouvido” ou “o zumbido vem da mandíbula”. Em alguns casos, diferentes fatores podem coexistir, e uma investigação adequada ajuda a entender o que realmente merece atenção.
Se o seu zumbido muda com a mandíbula, o que essa informação pode dizer ao profissional?
Se você percebe que o zumbido muda ao abrir a boca, apertar os dentes, deslocar a mandíbula ou movimentar o pescoço, vale contar exatamente isso durante a consulta.
Para mim, não basta saber que “o zumbido muda”. Quero entender qual movimento provoca a mudança, o que acontece com o som e se existe alguma relação com dor, tensão ou outros sintomas.
Esses detalhes ajudam a montar um quadro mais completo.
Por exemplo, pode ser relevante saber se o zumbido começou próximo ao aparecimento de uma dor na mandíbula, se piora nos períodos em que a região cervical está mais tensa ou se acompanha mudanças nos sintomas temporomandibulares.
O consenso internacional sobre zumbido somatossensorial considera justamente a combinação dessas características mais informativa do que uma única manobra feita com a mandíbula.
Isso também ajuda a evitar uma conclusão precipitada. A modulação do zumbido pode indicar que sinais provenientes da mandíbula, da face ou do pescoço conseguem interferir na percepção sonora, mas não revela sozinha qual estrutura está causando o sintoma.
Por isso, durante a investigação, essa informação pode orientar uma avaliação mais detalhada da ATM, dos músculos mastigatórios e da região cervical quando houver indicação, sem deixar de considerar a avaliação auditiva e outros fatores envolvidos no zumbido.
Se você também apresenta dor, estalos, dificuldade para movimentar a mandíbula ou tensão muscular, esses sintomas acrescentam informações importantes. Expliquei essa associação com mais profundidade em Zumbido e DTM: tensão na mandíbula e incômodo no ouvido.
Para entender a relação mais ampla entre oclusão e zumbido, sem assumir uma causalidade automática, também vale consultar Zumbido no ouvido e mordida desalinhada: existe uma conexão?.
O mais útil é observar o comportamento do sintoma sem tentar provocar repetidamente a mudança em casa. Saber que o som se modifica com determinados movimentos já é uma informação que pode contribuir para o raciocínio clínico.
Mexer a mandíbula e perceber o zumbido mudar não fecha um diagnóstico. Mas pode ser uma pista importante para entender se existe participação somatossensorial naquele quadro e quais áreas precisam ser investigadas.
Quando o zumbido muda com a mandíbula, essa informação merece ser investigada
Perceber que o zumbido aumenta, diminui ou muda de tonalidade quando você movimenta a mandíbula pode parecer um detalhe, mas essa informação pode ajudar a direcionar a investigação.
Ela pode indicar uma influência somatossensorial sobre a percepção do som, principalmente quando aparece junto de dor, tensão muscular, sintomas de DTM ou alterações na região cervical. Ao mesmo tempo, essa modulação não permite concluir sozinha que a causa esteja na ATM, na mordida ou nos músculos da mastigação.
É por isso que eu prefiro olhar para o conjunto. Avalio os sinais da mandíbula e da musculatura quando eles estão presentes, considero a relação entre esses sintomas e o zumbido e, sempre que necessário, trabalho em conjunto com a avaliação auditiva e com outros profissionais.
Se o seu zumbido muda quando você abre a boca, aperta os dentes ou movimenta a mandíbula e você também percebe dor, tensão, estalos ou desconforto nessa região, essa combinação de informações merece uma avaliação cuidadosa.
Atendo em Pinheiros e na Vila Madalena, em São Paulo. Se você quer entender se existe alguma participação da mandíbula ou da DTM no seu quadro, me chame pelo WhatsApp para agendar uma avaliação.
Referências
DEHMEL, S.; CUI, Y. L.; SHORE, S. E. Cross-modal interactions of auditory and somatic inputs in the brainstem and midbrain and their imbalance in tinnitus and deafness. American Journal of Audiology, v. 17, n. 2, p. S193-S209, 2008. DOI: 10.1044/1059-0889(2008/07-0045). Disponível em: PubMed
DELGADO DE LA SERNA, Pablo et al. Effects of cervico-mandibular manual therapy in patients with temporomandibular pain disorders and associated somatic tinnitus: a randomized clinical trial. Pain Medicine, v. 21, n. 3, p. 613-624, 2020. DOI: 10.1093/pm/pnz278. Disponível em: PubMed
DEMOEN, Sara et al. Neck and jaw dysfunctions in somatosensory tinnitus: clinical insights and implications. Musculoskeletal Science and Practice, v. 83, art. 103546, 2026. DOI: 10.1016/j.msksp.2026.103546. Disponível em: PubMed
FERRILLO, Martina et al. Efficacy of rehabilitative therapies on otologic symptoms in patients with temporomandibular disorders: a systematic review of randomised controlled trials. Journal of Oral Rehabilitation, v. 51, n. 8, p. 1621-1631, 2024. DOI: 10.1111/joor.13716. Disponível em: PubMed
MICHIELS, Sarah et al. Diagnostic criteria for somatosensory tinnitus: a Delphi process and face-to-face meeting to establish consensus. Trends in Hearing, v. 22, 2018. DOI: 10.1177/2331216518796403. Disponível em: PubMed
MICHIELS, Sarah et al. Somatosensory tinnitus diagnosis: diagnostic value of existing criteria. Ear and Hearing, v. 43, n. 1, p. 143-149, 2022. DOI: 10.1097/AUD.0000000000001105. Disponível em: PubMed
MICHIELS, Sarah et al. The Rapid Screening for Somatosensory Tinnitus Tool: a data-driven decision tree based on specific diagnostic criteria. Ear and Hearing, v. 43, n. 5, p. 1466-1471, 2022. DOI: 10.1097/AUD.0000000000001224. Disponível em: PubMed
MICHIELS, Sarah. Somatosensory tinnitus: recent developments in diagnosis and treatment. Journal of the Association for Research in Otolaryngology, v. 24, n. 5, p. 465-472, 2023. DOI: 10.1007/s10162-023-00912-3. Disponível em: PubMed
MICHIELS, Sarah. Craniomandibular disorders and somatosensory tinnitus: diagnostics and treatment strategies. HNO, 2026. Publicação antecipada online. DOI: 10.1007/s00106-026-01736-2. Disponível em: PubMed
PINCHOFF, R. J. et al. Modulation of tinnitus by voluntary jaw movements. American Journal of Otology, v. 19, n. 6, p. 785-789, 1998. Disponível em: PubMed
RALLI, Massimo et al. Somatosensory tinnitus: correlation between cranio-cervico-mandibular disorder history and somatic modulation. Audiology and Neurotology, v. 21, n. 6, p. 372-382, 2016. DOI: 10.1159/000452472. Disponível em: PubMed
RALLI, Massimo et al. Somatosensory tinnitus: current evidence and future perspectives. Journal of International Medical Research, v. 45, n. 3, p. 933-947, 2017. DOI: 10.1177/0300060517707673. Disponível em: PubMed
SHORE, Susan; ZHOU, Jianxun; KOEHLER, Seth. Neural mechanisms underlying somatic tinnitus. Progress in Brain Research, v. 166, p. 107-123, 2007. DOI: 10.1016/S0079-6123(07)66010-5. Disponível em: PubMed
SILVA, Marianne Trajano da et al. Effectiveness of physical therapy interventions for temporomandibular disorders associated with tinnitus: a systematic review. Journal of Clinical Medicine, v. 12, n. 13, art. 4329, 2023. DOI: 10.3390/jcm12134329. Disponível em: PubMed
SIMMONS, Richard et al. Head, neck, and eye movements that modulate tinnitus. Seminars in Hearing, v. 29, n. 4, p. 361-370, 2008. DOI: 10.1055/s-0028-1095895. Disponível em: PubMed
VAN DER WAL, Annemarie et al. Treatment of somatosensory tinnitus: a randomized controlled trial studying the effect of orofacial treatment as part of a multidisciplinary program. Journal of Clinical Medicine, v. 9, n. 3, art. 705, 2020. DOI: 10.3390/jcm9030705. Disponível em: PubMed
WON, Jun Yeon et al. Prevalence and factors associated with neck and jaw muscle modulation of tinnitus. Audiology and Neurotology, v. 18, n. 4, p. 261-273, 2013. DOI: 10.1159/000351685. Disponível em: PubMed
YU, Hong-Zhe et al. The effect of physical therapy on somatosensory tinnitus. Journal of Clinical Medicine, v. 13, n. 12, art. 3496, 2024. DOI: 10.3390/jcm13123496. Disponível em: PubMed
Diretrizes e fontes institucionais
NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Tinnitus: assessment and management. NICE Guideline NG155. Disponível em: NICE
NATIONAL INSTITUTE ON DEAFNESS AND OTHER COMMUNICATION DISORDERS. Tinnitus. Disponível em: NIDCD
NATIONAL INSTITUTE ON DEAFNESS AND OTHER COMMUNICATION DISORDERS. Sudden deafness. Disponível em: NIDCD